A violência da omissão

prato do diaNesta quinta-feira, ao abrir os sites de notícias, li que um estudo divulgado pelo Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – revela que a maioria da população brasileira acredita que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Segundo a matéria, “o resultado mostra que as mulheres são apontadas como culpadas pela violência sofrida. Por trás da afirmação, está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores”. A notícia me deixou tão perplexa que, ao sentar-me à frente da tela em branca do Word, não consegui ordenar de imediato as idéias e um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim. Por mais machista que eu saiba ser a nossa sociedade, eu não conseguia compreender como poderia se culpar a vítima de uma violência tão brutal.

Até ler a infame matéria, apesar de me preocupar, nunca me propus a discutir sobre o assunto. O estupro é um crime e ponto final. O que há de se discutir nisso? No entanto, fica claro que, na realidade, o estupro não é tratado com a rigidez dos outros crimes. Os estupradores quase não são denunciados, pois a vítima sofre tanta violência ao denunciar, que não tem motivação para passar por isso e, quando são denunciados são soltos porque a “vítima não lutou o suficiente”.

A estatística diz que uma em cada cinco mulheres já foi ou será vítima de estupro. Isso não é somente um crime. As proporções do estupro são epidêmicas. As marcas são eternas. E você ainda descobre que a maioria da população acredita que a culpa é da roupa curta.

Começo a compreender melhor a necessidade de reações e protestos como a Marcha das Vadias. O nome é rude e quando eu ouvi pela primeira vez me veio um misto de pensamentos negativos. Mas eu explico: em uma universidade em Toronto, um policial, ao dar uma palestra sobre segurança no campus, disse que as mulheres deveriam evitar se vestirem como vadias para não serem estupradas. Indignadas, as mulheres organizaram uma primeira marcha para dizer: “o que quer que eu vista, onde quer que eu vá, sim significa sim, e não significa não”.

Toda mulher, desde pequena, conhece todas as precauções pra evitar ser estuprada. Tem dica anti-estupro da avó, da mãe, da polícia, da propaganda, de tudo. “Não saia com gente que não confia”, “não volte pra casa muito tarde”, “use roupas tampadas pra não chamar a atenção”, “não deixe um estranho perto da sua bebida”, “não beba demais”, “peça a um amigo pra te acompanhar até o carro”, “faça aula de defesa pessoal”, “deixe detalhes de onde você foi e com quem você vai estar antes de sair”…

Toda a mulher que você conhece, inclusive as que estão na marcha das vadias, sempre tomou e sempre irá tomar essas precauções básicas para se proteger de ser atacada. Ninguém está querendo mandar isso às favas. O que me incomodou na matéria não é apenas a necessidade de precaução, mas a certeza de que a maneira com que se lida com o crime de estupro está errada. Os assaltos, por exemplo, são crimes analisados com muito mais rigor do que os estupros. Você pode até ser chamado de ingênuo por ter andado de madrugada com seu iPhone ou iPad à vista, mas nunca ninguém vai duvidar que você foi assaltado. Nunca ninguém vai questionar se não foi uma ‘doação seguida de arrependimento’. Nunca ninguém vai absolver o ladrão do crime simplesmente por que você estava “dando bobeira”. E todas essas coisas acontecem quando o crime em questão é o estupro. Esquecem-se os responsáveis pela justiça que o estuprador rouba muito mais do que um objeto que pode ser facilmente substituído na loja da esquina, ele rouba almas e a dignidade da vítima.

Quando entendemos que é normal fazer estes julgamentos, ou quando diminuímos a culpa do criminoso culpando a vítima, damos um passo para trás no combate contra a violência. A pesquisa do Ipea mostra que a população, indiretamente, vem contribuindo para esse estado de coisas. Somos mais coniventes com a ação omissa da polícia. Não lutamos por políticas públicas de acolhimento e proteção das vítimas, sem distinção, seja uma turista americana ou uma menina negra da periferia. Não incentivamos mulheres a denunciar, e ainda fazemos com que elas tenham vergonha ou medo de represálias ou julgamentos. O que nos falta é bom senso, segurança pública, carinho, mas principalmente, falta a gente não banalizar mais a violência. O comodismo é violento. A falta de preocupação com os outros é violenta. O egoísmo é violento.

Nos tornamos, a cada dia, cidadãos omissos. E com essa omissão, violamos a vítima mais uma vez. E o ciclo vicioso continua ininterrupto. É preciso deixar claro que não, em nenhuma hipótese, por razão alguma, a culpa é da vítima. A vítima merece isso. Aliás, não tem nada a ver com merecimento. Tem a ver com direitos e respeito.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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