A saúde e a resiliência dos médicos

kaluNa edição de fevereiro, do Jornal SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia), li um excelente artigo de Marcus Vinícius Bolívar Malachias, cardiologista clínico, doutor em cardiologia e professor universitário, que me chamou a atenção sobre o tema. Enviei-lhe o seguinte e-mail:

“Meu caro Marcus Vinícius

Quero parabenizá-lo pelo excelente artigo publicado no Jornal SBC, fevereiro de 2013, cujo tema é um alerta a muitos profissionais médicos preocupados mais com o ter do que com o ser. Como ainda não está disponível na Internet, gostaria de solicitar autorização para transcrevê-lo em dois veículos de comunicação. Um blog que disponho e o Jornal da minha cidade, onde escrevo uma coluna. Colegas de outras especialidades certamente não terão acesso de outra maneira, ao seu artigo.

A resposta foi imediata:

Prezado colega Carlos,

Sinto-me honrado com a sua mensagem. Alegra-me que tenha gostado do texto. Fique à vontade para reproduzi-lo e divulgá-lo como desejar. Para mim será um prazer ver o texto divulgado a outras especialidades e à comunidade.

Abraços,

Marcus Vinícius Bolívar Malachias

Abro o espaço desta semana para transcrevê-lo na coluna “Umas e Outras”.

“Resiliência é a capacidade de se manter o equilíbrio emocional sob grandes tensões. A medicina é uma profissão desafiadora e que requer o poder de transcender adversidades. Além disso, espera-se que os médicos tornem os seus pacientes mais saudáveis, mas que também sejam zelosos com a própria saúde. A realidade, no entanto, é bem diferente. Pesquisas sobre a saúde física e mental dos médicos revelam que eles parecem ser tão focados nos cuidados com seus pacientes que negligenciam o seu próprio bem-estar. É também comum a cultura de invencibilidade entre tais profissionais. O burnout, o esgotamento físico e mental devido ao trabalho, é altamente prevalente entre médicos. Uma pesquisa realizada em nosso meio pelo Conselho Federal de Medicina, em 2007, revelou que, à época, a maioria dos médicos (57%) apresentava algum grau preocupante de burnout. Um em cada 10 médicos (10,6%) se encontrava em burnout extremo. A pesquisa revelou ainda que a maioria desses profissionais atuava em três ou mais empregos, que 39,5% trabalhavam de 41 a 60 horas semanais, enquanto 20% trabalhavam de 61 a 100 horas. Embora não existam dados recentes, provavelmente, o cenário médico atual é igual ou ainda pior. A multiplicidade de ações parece ser um dos maiores problemas da profissão. Segundo o Tao-Teching, “o caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso; cada ponto de chegada é um ponto de partida; cada reencontro é uma despedida”. No livro First do no ham – being a resilient doctor in the 21st century*, L. Rowe e M. Kidd aconselham os colegas a “criarem um santuário acolhedor em casa, preservando relacionamentos, família e amigos”, que se perdem em meio às múltiplas ações. Os autores sugerem ainda que os médicos encarem os conflitos como oportunidades, que não se isolem e participem ativamente de sociedades e grupos profissionais, que sigam aquilo que recomendam, ou seja, consultem regularmente um médico de confiança e evitem a automedicação, lembrando-se sempre que seu comportamento deve ser um exemplo para seus pares, pacientes e a comunidade. Pesquisas revelam que médicos que adotam um estilo de vida saudável obtém mais sucesso na orientação de seus pacientes. Um estudo piloto realizado na Clínica Mayo demonstrou que a adoção de programas simples que busquem aumentar a qualidade de vida e diminuir o estresse dos médicos podem melhorar significativamente a resiliência, a ansiedade e a produtividade. “Homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Pensam ansiosamente no futuro e se esquecem de viver o presente. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido”, conclui o Dali Lama.

* Tradução livre: Em primeiro lugar, não prejudiques (aforismo romano): ser um médico resiliente no século XXI

Carlos Amorim Dutra

carloskdutra@gmail.com

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