A saga de Zé Mocotó – I

Valentão, Zé Mocotó teve vida curta

Este jovem, durante anos, aterrorizou Itororó e região, por isso, morreu muito moço, aos 31 anos de idade. José Bertulino Costa foi o nome recebido no dia da festa batismal. “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja Deus louvado” disse aquela gente simples do sertão de Condeúba na Bahia. “Jesus, Maria, José”, em casa de José Egídio Bertulino da Costa e Ana Maria de Jesus à luz foi dada a gêmeos do sexo masculino. Nasceram mabaços, um bebê muito vivo e o outro natimorto. “Com uma seca braba dessa, achou pouco um, pois veio logo foi dois”, todos resmungavam por ali.

Os nascimentos aconteceram no dia 17 de abril de 1925. Criança mimada, José, único filho homem, fazia a alegria das duas irmãs mais velhas. José, agora, é um garoto de dupla estripulia na região. Aos 7 anos de idade ele já caçava sozinho. Nas enormes pedreiras matava mocó a pau, no cerrado abatia o camaleão puxado pelo rabo. Na baixada pegava preá a mão, perseguia a seriema e desafiava o cascavel no chão rachado do leito ardido da lagoa que secara. Mas José confiava mesmo era no seu certeiro bodoque e no velho toco de facão amarrado à cintura. O Zé era mesmo um terror no sertão condeubense. Todo pirralho da sua idade tinha medo dele e os mais velhos também lhe respeitavam.

Como até hoje acontece escassez de chuvas no semi-árido, na década de 30, a seca castigou o sertão de ponta a ponta. Em Condeúba não foi diferente. José Egídio Bertulino da Costa e Ana Maria de Jesus sentiram a crise na pele, então pegaram a filharada e com uma mala de couro nas costas e uma cuia na mão, partiram a pé em busca de melhoria de vida. Eles lembraram que tinham uns primos longes, num lugar mais longe ainda chamado de Camacã, antigo Vagito, lá para as bandas do Sul. Nesse tempo Camacã chovia tanto que fazia sapo pedir canoa.

Metade do caminho eles fizeram a pé, arrastando chinelo no chão vermelho e a outra metade seguiram de carona na carroceria do caminhão de Zé Prudêncio Pé de Lixa. – Tinha esse apelido porque corria muito. – Zé Prudêncio tinha ido levar uma carga em Espinosa no norte de Minas Gerais e na volta deu carona àqueles desvalidos que palmeavam centenas de quilômetros nas estradas poeirentas do sertão, rumo ao Sul. Dali até chegar a Camacã, destino final do motorista e, coincidentemente, dos caronas, os catingueiros que eram brancos ficaram vermelhos, tingidos pela poeira das estradas.

A viagem transcorreu em paz, apesar dos perigos das ladeiras do Espinhaço e do Marçal onde Zé Prudêncio tocava a buzina e enfiava o pé, confiado no breque do seu cheba. Eis que no crepúsculo de uma sexta-feira cinzenta, de céu carrancudo, Zé Prudêncio acionava a buzina do carrão tocando Asa Branca, em regozijo por um feliz retorno a Camacã. Lá chegando, os catingueiros permaneceram por todo tempo. Seu José Egídio procurou fazer o que sabia. Ele era magarefe profissional e levava a vida abatendo gado para os açougueiros daquela região.

Era dessa labuta que ele conseguia tirar algum dinheiro para comprar a gordura de passar no beiço dos barrigudinhos. Mas aonde seu José Egídio ia levava junto o filho José Bertulino que cresceu vendo o pai abater gado e acabou também aprendendo a profissão. Algum tempo depois José Egídio recebeu uma carta de um compadre que morava em Itapuí, lhe convidando para morar naquele lugarzinho que estava se desenvolvendo muito rapidamente. Porém, ele já estava gostando muito de Camacã, porque ali não lhe estava faltando trabalho. Rejeitou o convite, mas mandou seu filho José Bertulino Costa que contava com seus 15 anos de idade e já sabia abater, esfolar e desossar uma rês como gente grande, e o Zé manifestou certo interesse em correr trecho. O velho José Egídio escreveu uma carta recomendando a seu compadre Francisco que assumisse a paternidade do seu afilhado como se fosse seu verdadeiro filho.

José Bertulino Costa, muito destemido, botou a carta no bolso e seguiu viagem sozinho, montado num asinino que ganhara de presente, passou pelas aldeias de Santa Rosa e Palmares até chegar em Itapuí. Era começo da década de 40 quando José Bertulino Costa chegou a Itapuí e ali, sob a tutela do seu padrinho Francisco, viveu laborando no ramo de gado, pois era o que ele sabia fazer com maestria. Puxar um boi pelo rabo e fazer o bicho rolar pelo chão lhe dava o maior prazer. Amansar burro bravo e esperar um touro no ferrão eram o lazer daquele garoto sertanejo que já havia se adaptado à vida dos grapiúnas. O seu bom manejo no ramo de lidar com gado, e o seu destemor de jovem vaqueiro, faziam com que ele não enjoasse nunca a cara de um marruá. José Bertulino sempre foi o mais procurado vaqueiro da região, para buscar boiadas nas alterosas das Minas Gerais. José Bertulino era tão habilidoso na profissão de vaqueiro que muitas vezes, propositadamente, ele deixava um touro valente escapar do tronco só para lhe proporcionar bons momentos de luta em plena via pública. Ali ele labutava com aquele bicho, “na mão grande” ou no bico do ferrão, e depois de dominar a fera e humilhar o animal, ele acabava chopando o bovino com sua afiada peixeira ali mesmo. Com aquela bravura exposta a público, acabava despertando interesse nas mocinhas da vila que admiravam um cow-boy destemido e corajoso como os artistas do cinema.

A fama de Zé Bertulino foi crescendo na região. Até que um dia, segundo um artigo relatado no Jornal Tribuna Popular, número 05 – ano 1995 – José Bertulino Costa recebeu um convite do pessoal do ramo, lá da vila de Palestina Baiana, para desafiar o famoso magarefe João Couro de Boi, terror dos currais do Sul da Bahia. O objetivo da porfia era descobrir entre os dois quem era o mais rápido no abate, esfola, desossa e preparação da carne de uma rês. O vencedor ganharia como prêmio um novilho gordo e um cavalo arreado da raça Mangalarga.

José Bertulino, ao tomar conhecimento da disputa, rapidamente, aceitou o desafio. Este encontro de gigantes ouriçou os magarefes e vaqueiros de toda a região. Todos queriam testemunhar o desafio do ano, até porque ninguém acreditava que houvesse, no Estado da Bahia, alguém que pudesse vencer o lendário João Couro de Boi.

A cada um dos magarefes foi entregue, na “boca da sangra”, um marrueiro de 25 arrobas, um machado, uma faca super afiada e uma xára. Quatro fiscais foram convidados de cidades circunvizinhas para atuarem como juízes. Ali estavam os mais afamados magarefes da região, junto uma comissão organizadora que não abria mão de nada, estava atenta a tudo.

O João Couro de Boi era um senhor de mais ou menos 35 anos de idade, conhecido em toda a redondeza pela sua habilidade lidando com gado desde o pasto, o curral até o açougue. E só isto já lhe dava a certeza da vitória.

José Bertulino Costa, um garoto ainda, franzino, desnutrido, descorado e desconhecido da vaqueirama de Palestina, parecia mesmo ser presa fácil para o João Couro de Boi.

Os juizes acertaram seus cronômetros e autorizaram o início da luta. Os touros foram abatidos na presença de todos que ali estavam e que não se ousavam em desviar a atenção nem mesmo para cuspir.

João Couro de Boi logo quis mostrar sua competência e sua habilidade profissionais, pois para ele, aquele desafio era uma barbada. Por outro lado, o catingueirinho também queria mostrar os seus conhecimentos práticos que aprendeu com seu pai, e também queria expor sua audácia e o seu equilíbrio de jovem vaqueiro. A luta começou, exatamente, no horário agendado.

Moral da história, por uma diferença de 2 minutos, José Bertulino Costa entregou o boi abatido, esfolado, desossado, retalhado e a carne salgada como determinavam as regras e ainda de quebra apresentou os quatro mocotós também esfolados e retalhados, prontinhos para uma boa mocotozada. João Couro de Boi, apesar de cabisbaixo, aceitou a derrota e foi parabenizar o jovem José Bertulino Costa pela sua rapidez. E por cuidar, também, das patas do boi que não fazia parte do desafio, José Bertulino Costa, foi apelidado, pelo próprio João Couro de Boi, de Zé Mocotó. Porém o que se falava na cidade era que o seu apelido se devia a uma ferida incurável que o Zé Mocotó tinha na perna esquerda (uma canuta).

O prêmio conquistado, um novilho gordo, foi transformado num big churrasco em meio a uma baita festa da vaqueirama, no distrito de Itororó, na presença de muitos que assistiram aquele desafio, inclusive o perdedor. E o cavalo mangalarga serviu para o jovem cow-boy conquistar novos corações cavalgando pelas ruas do lugar.

A partir dali, José Bertulino Costa foi um nome esquecido. Em seu lugar surgiu o Zé Mocotó. Este pseudônimo o perseguiu até a morte. Zé Mocotó, agora famoso, liderava o ranking regional como herói da vaqueirama. Mas apesar da fama de valente, Zé Mocotó, fazia amizade com muita facilidade e quando gostava de uma pessoa tomava suas dores nos momentos mais difíceis.

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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