A primeira vez

Quando entrei pela livraria, a sensação era quase a mesma de um primeiro encontro. Pode parecer loucura ou exagero, mas quem tem alguma relação mínima com a literatura vai entender o que quero dizer. Era um encontro. A diferença é que ele não me conhecia e eu conhecia a minha versão das muitas versões dele.

Cheguei cedo para garantir meu lugar, para ter a certeza de que não perderia a chance de pedir um autógrafo, se estivesse lotado. Cheguei cedo também porque sou ansiosa demais e não conseguiria esperar mais hora nenhuma longe dali. Livrarias têm um poder incrível de me acalmar.

Ele chegou um pouco tímido, como imagino devem ser os grandes escritores, e da primeira fila onde estava, aplaudi com o restante da platéia. Não estou certa de que vocês possam imaginar o meu sorriso. O entrevistador fez algumas perguntas que não eram lá muita coisa, eu teria tantas outras mais para fazer a ele, mas as respostas surgiram tão cheias de alma e coração que agradou todo mundo. José Luís Peixoto, escritor português, estava ali, a pouco mais de um metro de mim, e dizia ao vivo as coisas mais lindas, muito mais do que eu esperei que ele dissesse, sobre os livros, sobre a escrita, suas origens, sobre a literatura que eu tanto admiro. Observando atenta tudo que ele dizia, com tanta simplicidade e humildade, foi que entendi o que torna alguém um grande escritor.

Apesar de ser uma leitora apaixonada, era a primeira vez que ficava assim tão perto de um dos meus escritores favoritos. Acredito que por falta de oportunidade mesmo, visto que por um bom tempo morei em uma cidade que infelizmente não cultiva esse hábito. Na minha estante já tinha alguns exemplares muito especiais, autografados por Inês Pedrosa e Adélia Prado, por exemplo, que amigos queridos, sabendo da minha adoração, tiveram a generosidade de conseguir autografados para mim. Mas aquele momento era diferente. Não era apenas a minha primeira vez na frente de um escritor que eu simplesmente admirava de todo coração, estava também diante de José Luís Peixoto.

Depois de uma hora que passou voando ao som do lindo sotaque português, seguimos para a seção de autógrafos, e uma fila bem grande se formou. Fiquei mais para o final, tinha na minha bolsa dos Beatles todos os livros do José Luís que haviam sido publicados no Brasil, apesar de haver outros que só foram publicados em Portugal, que não consegui de forma alguma encontrar aqui no Brasil, apesar de desejá-los muito.

Na fila, conversa vai, conversa vem, vamos conhecendo um pouco das pessoas que ali estavam. A fila custava a andar, mas eu esperava paciente, sabendo que na minha vez, ia querer que o tempo parasse também. Encantada estava eu por vê-lo conversar com cada um que estava ali, autografando pacientemente os exemplares de “Livro” que estava sendo lançado no Brasil, olhando nos olhos de cada um. Tinha nas mãos a edição portuguesa de “Livro”, carinhosamente trazido de Portugal por minha prima no final do ano passado. Fã que é fã muitas vezes não consegue esperar o lançamento aqui.

A minha vez chegou e nem sei descrever ao certo o que aconteceu, tamanha foi a emoção. Creio que corei, como costumo fazer quando estou envergonhada ou diante de muita emoção, como aqueles que me conhecem podem atestar. Gostaria de ter todos os meus livros autografados por ele, já que gosto de todos e não consigo me decidir por um só, parece injusto com os demais. Mas a fila estava grande, já estávamos ali faz tempo, eu não queria abusar. E então ele diz que seria um prazer autografá-los para mim. E foi assim que conversando sobre os livros que eu amo, consegui um autógrafo muito especial em cada um dos cinco livros que levava comigo. Para não fazer feio, comprei um na livraria, a edição brasileira, que acabou ganhando um autógrafo para minha irmã. Quando dei por mim, não estava de pé diante da mesa na qual os autores se sentam para autografar os livros como todo o restante da fila. Estava ajoelhada diante da mesa, observando-o a escrever nos meus livros, completamente encantada. E se o corpo fala, creio que estava em posição de adoração.

Agradeci, tirei foto, ganhei um abraço. Livros autografados, o que mais uma fã pode querer? Depois de me perguntar quais livros dele eu não tinha, eu ganhei de presente o livro que ele havia lido na FLIP desse ano poucos dias antes, escrito em homenagem ao seu pai, e que eu não conseguia encontrar em lugar nenhum. E foi assim que uma fã muito emocionada voltou para casa abraçada aos livros mais queridos, aqueles que ficam naquele cantinho da estante reservado aos livros sagrados, aos livros que falam ao coração.

José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, Portugal. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio Literário José Saramago em 2001 com o romance “Nenhum Olhar”, considerado um dos melhores livros publicados na Inglaterra no ano de 2007. Seus romances estão publicados em 20 idiomas. Foi considerado por José Saramago “uma das mais surpreendentes revelações das Letras Portuguesas recentes”.

 

* Paula Dutra é tradutora e professora.

 

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