A pinguela e o cabaço

843_3390_440Ao saltar, inadvertidamente girou o cós da saia e, através da maneira, deixou entrever uma tentadora calçola de chita estampada, combinando com o califom, de onde saltavam seios fartos e tentadores. Pedira uma ponga, a meio caminho de casa, exatamente na carroça daquele que, platonicamente, estava caidinho por aquela moça em quem acreditava ainda virgem, sem saber que fora deflorada pelo primeiro que lhe abrira o corrião, reata por reata.
— Vosmecê ia deslindar essa lonjura toda a pés? — perguntou-lhe com o jeito brejeiro que caracteriza o nosso homem do hinterland, sem sequer observar o pai que, da porta e ainda de ceroulas, lisonjeiro, disse-lhe um “Deus lhe ajude”.
— Não é tão longe assim, não. Daqui, donde eu vinha é, na bestunta, légua e meia — respondeu, matreira, como se ele não soubesse a distância percorrida.
A moçona, vistosa e sedutora, era uma bela fêmea, ainda que tivesse a cara marcada por vestígios de uma bexiga que se lhe acometera, havia pouco. Por sua vez o rapaz não lhe era indiferente, visto que, embora não fosse bonito, tratava-se do beque do time dali e sempre que ele ia cobrar “ofissaide” ou “córnia”, aproveitava-se para observá-lo de perto. Não sem razão era considerado quem melhor centrava entre os jogadores das redondezas.
O guapo e ingênuo rapaz, gentil, muito tranqüilo e de boa nascença, outrora um guri muito malino, hoje de indubitável homência, muito operoso e cobiçado pelas interesseiras, era torcedor apaixonado do Flamengo {Garcia, Leoni e Pavão – Jadir, Dequinha e Jordan – Joel, Rubens (doutô Rúbe!), Índio, Benitez e Esquerdinha}, acostumado a ouvir “a voz inconfundível” de Jorge Cury, através das ondas da “Rádio Nacional”, num aparelho alimentado por acumulador, sob a parca iluminação do inestimável fifó; seu sonho era ter uma radiola, coisa nova que ouvira tocando na cidade grande, lá no Armarinho de Oflávio.
— Seu Osmar, vê lá se é de gosto eu casá cum sua fia, apois qui sem ela a gente num pode tê outras, né verdade?
Foi assim que, contrariando a própria mãe viúva, porquanto rapariga falada e tratada como sobejo pelos seus circunstantes, pediu a mão a um já desiludido pai que, sem sequer ouvir a filha, aceitou de pronto, conquanto o casório fosse o mais rápido possível; era o mais do que lógico.
Além de tudo tratava-se de um moço sério e abstêmio, acostumado a só beber garapas, de preferência limão com rapadura, sem bicarbonato, porquanto outra bebida, mesmo refrigerantes, ainda quentes, dava-lhe tremenda gastura.
Do outro lado do rio já havia construído casa de morada, de adobes e coberta de telhas vãs, mas rebocada e caiada, onde colocou uma sentina de cimento e tijolos de alvenaria, coisa rara na região.
Não faltaram ao menos cama “Patente”, colchão de marcela e dorme-bem.
O casamento, mesmo com o tempo bastante chuvoso, foi concorridíssimo, até porque os jovens convidados sabiam que Tranquilino, ainda que sem outros defeitos, era simplesmente um donzel; viam nele, com sua aura virginal, o próprio fruita.
Depois do arrasta-pé, que durou até o raiar do dia, os dois foram, sozinhos e andando, para o novo lar e, por ele, esperado dia de núpcias. Eis que, cuidadosos e tementes com o rio cheio, ele à frente, ao atravessar a pinguela, de súbito Célia, com astúcia, deixou cair um bombom da festa, colocou as mãos sobre o baixo-ventre e gritou, desesperada:
— Tranco, meu cabaço caiu, amor… — E lamentou: — Ô meu Deus do Céu!
Não deu outra, assim que ouviu o ruído na água, Tranquilino pulou, com roupa e tudo, mergulhou no caudal das águas, sumiu de novo, vasculhou como pôde, tornou e bracejou rio acima, mergulhou outra vez com a afoiteza anterior, voltou, tomou fôlego e perguntou açodado:
— Ô Célia, o pixéu taí???
— Tá sim, meu anjo, pruquê?
— Antão deixa o cabaço pra puta qui pariu, sua bosta! Êta muié besta…
Geraram uma ninhada e ficaram juntos e harmoniosos até o fim de suas vidas.

Para Alécio Cunha, um erudito sertanejo mas, nem por isso, um FRACO.

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