A medicina dos mais antigos

kaluQuando menino jamais passou pela minha cabeça que no futuro seria médico. Nascido e criado em fazenda, apaixonado pela natureza, vivendo no meio dos pássaros e dos bichos, dizia mesmo que iria me formar pra vaqueiro. Meu pai achava graça. O tempo foi passando e mudando o rumo do meu sonho, mas jamais perdi minhas raízes. Em recente campanha de saúde contra verminose realizada nas escolas, com crianças de 5 a 14 anos, as crianças receberam como tratamento profilático, um comprimido em dose única, com sabor laranja, que deveria ser mastigado. Não chegaram sequer a fazer cara feia. No meu tempo a coisa era bem diferente. O tratamento de verminose que meu pai instituia todo ano na Fazenda Liberdade, mesmo sem ser médico, era feito de outra forma. Juntamente com meus irmãos, éramos obrigados a engolir quase meia dúzia de uns comprimidos amarelos (pílulas), de sabor amargo, parecendo terem sido feitas de borracha. No dia D a gente corria e escondia debaixo da cama para não tomar aquele maldito remédio, que parecia mais um purgante. Meu pai aparecia e só fazia balançar o chicote na beira da cama e as cabeças iam surgindo uma após a outra. Aí, não tinha choro, nem vela. Melhor tomar o remédio do que cair no coro. Pior mesmo, só o óleo de rícino. O sumo de mastruz era outra opção para tratamento de verminose. Era um copo bem cheio para cada um. Não sei por que diabos todo remédio para verminose em nosso tempo era amargo igual fel. Diferente do xarope de Emulsão de Scott, do Biotônico Fontoura, que se dessem sopa a gente tomava o vidro inteiro. Em casos de tosse, tinha também o xarope de raiz de fedegoso, que minha mãe fazia, cozido com leite e melaço. Não era lá tão ruim. Devia ser por causa do açúcar. Não faltava o chazinho quente, de limão com gengibre, para os dias de resfriados. Em certas situações e quando havia disponível, usava-se a pomada Vick Vaporub, que minha mãe passava no tórax (no peito) da gente e tinha que ficar bem agasalhadinho. Tinha um cheirinho forte, mas gostoso. Só sei que juntamente com o carinho e o cuidado da minha mãe, a tosse era amenizada.

Havia também um vidro de uma pomada preta, de nome Iodex, que era boa para pancadas e contusões. Mas, na falta dela usava-se mesmo era a folha de mastruz bem amassada e amarrada com uma tira de pano, no local da dor. Não havia ataduras. Empachamento, desconforto gástrico, barriga fofa, mal estar: chá de alumã, amargo de doer. Para as dores de cabeça nada como um chazinho de erva cidreira. Se fosse enxaqueca, colocava-se algumas roletas de batatinha na testa e enrolava-se um pano em volta da cabeça. Acho que era por causa da temperatura fria da batatinha, que aliviava a dor. Para acalmar os nervos, chá de capim santo ou capim da Lapa. Em caso de furunculose havia uma planta que não sei bem se chamava corona, que tinha uma pequena vagem e que abria-se ao meio e colocava sobre o furúnculo, cobrindo-se com uma tira de pano. Depois de um ou dois dias, quando era retirada, saía todo o pus e o carnegão, nome que nunca entendi o significado. Miíase ou os tais vermes na cabeça, era curado com fumo de rolo. Espremia o caldo do fumo no local e esperava o berne aparecer e ser retirado com uma pinça. Tinha que sair inteiro.

Mas, boas mesmo eram as pastilhas Valda, as verdinhas, para garganta inflamada. Medicação injetável era coisa rara. Tinha que ter receita médica. Com poucos médicos na cidade, os médico de família eram Dr. José Sobrinho, Dr. Agnaldo Aguiar, Dr. Clodoaldo Costa ou Dr. Luis Jacy Diniz. Não sei se foi otite ou dor de ouvido mesmo, que me fez tomar a primeira injeção da minha vida, quando tinha mais ou menos uns seis a oito anos de idade, que nunca me esqueci. Doeu tanto que o nome ficou gravado na minha mente por toda vida. Chamava-se Tetrim IM. Só depois de muito tempo é que pude saber que o tal IM, significava intra-muscular. Não cheguei a ter trauma de injeção, mas se puder correr dela, corro léguas e sem a menor cerimônia. Na minha especialidade de cardiologia tive pacientes que tiveram que tomar Benzetacil IM, por toda uma vida, a cada 20 dias, por causa da Febre Reumática. Ninguém entendia o porquê de ter que usar tal medicação por tanto tempo, só para proteger o coração. Mas, sabiam que valia o sacrifício, evitando ter que submeter-se no futuro, a uma cirurgia cardíaca.

Não sei para que servia, mas se tomava muitos banhos de ervas, principalmente com folhas de laranjeira e São Caetano, uma planta de flor lilás, que enramava por cima das cercas. Havia também o pratudo, a umburana, a noz moscada, pedacinho de madeira que era raspada e o pó colocado em um copo de água. Normalmente eram usadas para problema de má digestão. Para variar, o gosto também era amargo. Em caso de congestão nasal, o tratamento era feito com bucha paulista, em forma de inalação, após colocá-la com água para ferver. Preparava-se um funil de papel e fazia a inalação daquele vapor. Tinha que ser na quantidade certa, pois do contrário, ficava com o rosto todo vermelho, feito alergia. Havia também uma raiz enorme de uma planta de nome quitara, que era trazida lá de Itarantim e usada em forma de chá, para tratamento de asma.

Na geração dos meus pais as coisas foram bem mais difíceis, pois não havia médico na cidade. Itapetinga era município de Itambé. Havia histórias de pessoas que foram carregadas em uma cama patente, improvisada com dois pedaços de madeiras amarrados nas laterais da cama e conduzida por quatro homens, num percurso de até duas léguas de distância, até chegarem a Itapetinga. E quando não havia recurso por aqui, tinham que ser transportadas de carro para Itabuna, em estrada de chão. Eram tempos difíceis, que contando a gente não acredita. De alguma coisa ainda me recordo, mas a maior parte dessas histórias foram passadas por minhas irmãs, que conviveram com tudo isso e que venho buscando na memória. Meu avô Alfredo Antonio Dutra, com a cultura mais avançada para a época, exerceu a função de médico através de um valioso livro que mandara vir de São Paulo, para tratamento de várias doenças. Com 2.340 páginas, o Formulário de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, Doutor em Medicina, Cavaleiro da Ordem de Christo e Oficial da Ordem da Rosa, foi adquirido pelo meu avô, em Janeiro de 1911, por 20$000. Era de que se valia para tratar muitas doenças. A bem da verdade era um Guia Médico contendo a descrição dos medicamentos, as doses, as doenças em que são empregados, as plantas medicinais indígenas do Brasil, um Compêndio alphabético das Águas minerais, e a escolha das melhores fórmulas, e muitíssimas indicações úteis. Tenho em meu poder este livro de 1908, 18ª edição, doado pela família e que guardo com muito carinho, por ser algo raro. Afora alguns fatos inusitados, comparando com a medicina de hoje, podemos dizer que vivemos no céu.

* Carlos Amorim Dutra

carloskdutra@gmail.com

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