A lenda de Lampião continua viva – II

Segundo “O Diário”, antigo jornal de Ilhéus, Lampião continuou pela região Sul da Bahia causando polvorosa onde passava.

Continuando a viagem pelas páginas do informativo do sul baiano, na sua primeira página, edição especial sobre o famoso grupo de cangaceiros que aterrorizou a população do Nordeste, o Diário traz notícias das últimas andanças de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, e seu bando.

Eles chegaram no começo da noite, depois de terem seqüestrado Antonio de Pissara. A notícia correu toda a cidade. Diziam que Lampião tinha vindo se vingar de um traidor e esse traidor era seu compadre, coiteiro, o velho Antonio de Pissaro. Por sorte, o velho conseguiu fazer com que sua mulher e filha escapassem com vida, ele quase que não teve a mesma sorte. Dois dos cabras, Jararaca – uma fera humana; e Zabelê, foram os responsáveis por tirar o couro do pobre homem. Mas, Deus estava do lado de Antonio. A volante, chefiada pelo sargento Getúlio, chegou antes deles matarem o coitado. Ouve troca de tiros. Um dos cabras fugiu, o outro não teve a mesma sorte.

Depois de sua passagem meteórica por Ilhéus, Lampião e seu bando seguem pelo Litoral Sul, onde deverão fazer pousadas em diversas cidades.

A população da região cacaueira está apreensiva e ansiosa, mas todos ainda querem ver o capitão.

Fontes seguras informaram ainda que o temível Capitão esteve na capela de Lourdes, no Alto de São Sebastião, onde fez oração e pediu bênção ao Padre José. Contam que o Padre, corajosamente, disse: “Lampião você está perdendo o juízo? Você aqui não mata ninguém”. E em seguida aconselhou o cangaceiro que, revoltado, saiu resmungando morro abaixo. Disseram ainda que na estrada para Tabocas, plantou umas cruzes, os chamados cruzeiros do acontecido – e rezou novamente, com a alma compungida, embora tenha ainda o punhal assassino, latejante, perto do selvagem coração…

As recentes informações da Sra. Maria Ferreira (Dona Mocinha), confirmam o que disse o Sr. Guilhermino Ferreira um retirante sertanejo que chegou a essa região para se alojar nas bandas de Itatí, antiga rancharia de Corindiba, onde comprou uma pequena propriedade e passou a viver com os seus filhos. Mais tarde foi trazendo toda a família para morar por ali. Guilhermino Ferreira, segundo contava, era primo de Lampião e temendo represália aos parentes mais próximos, após a morte do “Rei do Cangaço” em 1938, refugiou-se com a família nessas pirambeiras. Ainda lá pelas bandas da zona rural de Ribeirão de João Dias, a família Moreira do Vale que ali também se alojou, contava que eram primos carnais do cangaceiro Volta Seca e fugiram para se refugiarem nesta região, após ter assistido o primo bandoleiro matar a tiros um homem na feira livre da cidade de Chorrochó, região norte da Bahia, tendo o sangue espirrado nas roupas do membro da família Antonio Moreira do Vale.

Também no distrito de Bandeira do Colônia viveu com sua esposa até que a morte separou os dois, o Sr. José Alves que tinha um pedacinho de terras que ia até as margens do rio Colônia, onde plantava cereais. E ali ele tinha uma pequena parte de pasto onde criava umas vaquinhas e os seus bois de carro e mantinha alguns pés de mangas onde a gurizada lhe infernizava a vida, quando estava em época de safra, roubando os frutos. A profissão do velho Zé Alves era carreiro. Todo mundo cochichava que ele era remanescente do bando de Lampião e que viera para cá fugido, com medo da volante do Tenente Bezerra, porém, ninguém tinha coragem de passar isso a limpo. Seu Zé Alves era coxo de uma perna, por isto falavam que a sua deficiência física fora causada por um balaço da polícia na perseguição ao grupo de fora da lei.

Depois da bonita história da coronela do sertão da ressaca, Isabelinha Ferraz, muitas pessoas estão me pedindo para relatar trechos da história de Lampião o Rei do Cangaço. E desta forma, o meu amigo Zé Ventinha, pessoa literalmente comprometida com as boas informações do relato histórico regional em todos os aspectos, encontrou em São Paulo a Revista Diário Dez, com uma brilhante reportagem sobre a Dona Maria Ferreira, irmã de Lampião, que me trouxe muito mais subsídios para os novos artigos de minha coluna no Jornal Dimensão.

Já o meu amigo Dr. Roberto Flores, de excelente linhagem política de Vitória da Conquista, com marcas indeléveis na paisagem urbana dessa metrópole, também me chamou a atenção para a reportagem do Jornal A Tarde de 25.072011, da Sucursal de Vitória da Conquista, coluna do meu amigo Juscelino Souza, que descreve com riqueza de detalhes a saga de Anésia Cauaçu, a última cangaceira do cerrado sertão de Jequié, enfocada pelo jornalista, escritor e membro fundador da Academia Jequieense de Letras, Domingos Ailton. Segundo o relato do autor, Anésia Cauaçu foi a primeira mulher no sertão baiano de Jequié a ingressar no cangaço e liderar um bando de cangaceiros. Contam os mais velhos que sua força vinha de poderes ocultos, tipo magia negra. Em dados momentos, ela envultava, isto é, se desmaterializava, virava uma rocha, um touco de árvore ou outra coisa qualquer conforme sua vontade ou a ocasião. A julgar pelo que se lê, esta história vai virar enredo de novela ou mini série dentro de breves dias.

Voltando ao relato do Jornal “O Diário” que registrou a passagem de Lampião pelo Sul da Bahia, quando se referiu ao coiteiro Silvestre Guedes, chamado pelo bando de Lampião de «líder”, descreveu que esse disse à polícia alagoana que acoitou mesmo Lampião e alguns dos cabras em fevereiro de 1938. Disse ainda que ele e “seu pai”, mostraram juntos a fazenda, o rio e as vaquinhas que ambos criavam na roça. “Eu caminhei com o grupo quase oito horas e não vi nenhum sinal de cansaço. Lampião é um capitão destemido, corajoso, valente. Igual a ele não há”, informou Silvestre Guedes aos jornalistas. Perguntado sobre se acoitaria novamente o “Robin Hood” dos sertões, mesmo temendo represália da Volante, disse: “Quantas vezes for preciso. O capitão e Dona Maria sempre serão bem vindos nessa casa, não é meu pai?”

Silvestre Guedes foi liberado pela polícia logo depois de ouvido…

 

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