A inteligência antes da beleza

belezaEm um dia pouco inspirado, passo algumas horas navegando pela internet em busca de um assunto que atraia minha atenção e que me instigue a entrar num debate com aqueles que nos dão a honra da leitura deste nosso jornaleco. Hoje foi um desses dias bem difíceis. Todos os sites que costumo acompanhar já tinham sido visitados sem que o tal tema desta página dois aparecesse. Até que em um desses canais de notícias pouco importantes vi uma manchete bem curiosa: Nova campanha da marca de lingerie Aerie aposta na beleza real das mulheres.

A matéria dizia: “Na contramão de sua concorrente Victoria’s Secret, a Aerie estrelou a nova campanha com mulheres comuns e sem retoque nas imagens com Photoshop”.

A marca, da American Eagle, vende sutiãs, calcinhas e pijamas para o público feminino entre 15 e 21 anos, idade em que as jovens são constantemente pressionadas a se encaixar nos padrões de beleza. Na mensagem da campanha, a empresa se dirige ao público consumidor como “queridas garotas Aerie” e anuncia: “Achamos que é hora de mudança. Achamos que é hora de ser real e pensar real. Queremos que todas as garotas se sintam bem sobre si mesmas e sua imagem, por dentro e por fora. Isso significa: sem retoque e sem supermodelos. Porque? Porque não há motivo para retocar a beleza. Achamos que a verdadeira mulher é sexy”.

A prática do culto à beleza, de uma forma em geral, atravessa indistintamente classes sociais e faixas etárias. Lipoaspiração, silicone, botox, anabolizantes… A cada ano, dezenas de novos termos são incorporados ao vocabulário dos que cultuam a beleza. Multiplicam-se academias, clínicas, tratamentos “anti-isso”, “anti-aquilo”… Todos com um único objetivo: obter uma pele e um corpo “perfeitos”. O resultado às vezes é desastroso, plásticas que deixam uma pele artificialmente lisa, quase inexpressiva. O pior é que essa idéia fixa é cada vez mais precoce, fato que torna o culto à beleza um assunto extremamente preocupante.

Durante muitos anos mantive uma vida sedentária e bem avessa a qualquer tipo de atividade física. Nunca fui, durante minha adolescência, adepta aos esportes e a educação física para mim não passava de um momento para encontrar os colegas fora da sala de aula.

Há uns cinco anos, porém, as consequências de um sedentarismo e de uma péssima alimentação começaram a aparecer. O corpo, antes harmônico graças aos benefícios da genética, começou a não satisfazer mais e as incômodas gordurinhas localizadas tornaram-se cada vez mais evidentes. Além disso, a saúde reclamava: a disposição não era a mesma, eu acordava cansada e terminava o dia como se trabalhasse por horas. Foi então que corri até a academia mais próxima e me matriculei. O começo foi bem difícil. Acordar cedo para pegar peso realmente não era a melhor opção para mim. Além disso, meu preconceito com academias era igual ao de muitos. Para mim, aquele era um lugar de concentração de lipoaspiradas e “bombados” com músculos no lugar dos neurônios. Mas, como acontece com a maioria dos conceitos pré-concebidos, ao ver de perto o que me esperava, percebi que a realidade era outra. Está certo que este tipo de gente constitui parte da clientela de qualquer academia, mas não é a maioria. Boa parte de quem estava naquele ambiente buscava por saúde e bem estar. E foi ali que fui me encaixando. Hoje sou completamente adepta aos exercícios físicos e divulgadora de seus benefícios, mas permaneço completamente avessa à ditadura da beleza.

Acredito que a vaidade em si não causa preocupação. O que preocupa e assusta são repassados pelos jovens, ensinando-os desde cedo a valorizar o que é completamente dispensável. Os pais precisam ensinar aos filhos que a aparência não é tudo, embora deva ser cuidada. Exercícios e boa alimentação devem ser preocupações que vão muito além de combater os “pneuzinhos” ou seguir tendências da moda: eles servem antes, para alcançar o bem-estar e o conforto.

Para se ter uma idéia de como os valores estão invertidos, em 2011, a MTV perguntou a jovens, por exemplo, se trocariam 25% de inteligência pela mesma proporção de beleza. Resultado: 15% foram francos o suficiente para admitir a troca. Nem se preocuparam com o fato óbvio de que a beleza física passa rapidamente. Isso serve para comprovar que quando chega a adolescência, fase de intensas modificações corporais e conflitos psíquicos, a procura por um corpo “perfeito” pode se tornar excessiva. Diversas pesquisas têm demonstrado que, nessa fase, a tirania da beleza por um corpo magro tem gerado inúmeros casos de transtornos alimentares e depressões.

O que a empresa American Eagle quis com a mudança arriscada no padrão de publicidade foi tentar fazer com que os jovens se livrem da ditadura da beleza, esqueçam do modelo sem originalidade, que ignora a individualidade. Indústrias e mídia, a todo momento, pregam um padrão igual para todos, geralmente inatingível. O culto do corpo de maneira obsessiva faz com que as pessoas busquem uma perfeição impossível de ser alcançada. Que nossos jovens comecem a fazer escolhas mais acertadas e busquem a inteligência antes da beleza e, com inteligência, busque por mais saúde.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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