A indignação que não vem

Algumas semanas atrás, o jornal espanhol “El País” referiu-se ao Brasil com a seguinte pergunta: “Que país é este que junta milhões em uma marcha gay, outros milhões em uma marcha evangélica, e uma multidão em uma marcha a favor da maconha; mas não é capaz de mobilizar-se contra a corrupção?”

Aditando a pergunta, poderíamos acrescentar: que país é este que, em dez meses de governo, a presidente da República viu-se obrigada a demitir cinco de seus ministros de estado por motivos de corrupção?

A triste imagem do Brasil que a corrupção e o comodismo dos brasileiros diante dela levam ao exterior, é motivo para nos sentirmos todos absolutamente envergonhados de nossa cidadania. É claro que, desse sentimento, não participa a corrupta classe política. Mas, que há razões suficientes para o mundo de fato espantar-se com o nosso comportamento, isto há.

No dia 7 de setembro, durante as comemorações pela Independência, a mobilização de alguns brasileiros da cidade de Brasília mostrou ao país a reação que é preciso fazer contra a corrupção política que está dilapidando as finanças da nação e degradando a sua imagem no exterior.

O ato visto pela TV em todo o país ascendeu no espírito dos brasileiros a esperança de que a mobilização de Brasília pudesse alcançar foro nacional e, com isso, transformar-se em um movimento de força suficiente para impulsionar a presidente da República a realizar uma autêntica faxina nos diversos escalões de seu governo e, quem sabe, acabar de uma vez por todas com o vergonhoso loteamento dos ministérios entre os partidos políticos; via expressa da corrupção nacional.

Na ocasião, falou-se que a próxima data para outra mobilização popular, semelhante à de Brasília, mas, agora, à nível nacional, seria o dia 12 de outubro. Mas, este dia chegou e, infelizmente, nada aconteceu.

O curioso da mobilização de Brasília é que por trás dela não havia uma só entidade. A convocação das pessoas para participar da mobilização ocorreu por meio das redes sociais que diversos jovens brasileiros indignados com a corrupção que atinge todas as esferas do poder, resolveram acionar. As tradicionais organizações não governamentais do país que sempre participaram de forma ativa dessas manifestações, como a União Nacional dos Estudantes e os diversos sindicatos de trabalhadores, foram as grandes ausentes da mobilização. A propósito, coincidência ou não, temos observado que, a partir de 2002, data que coincide com o começo do governo do PT, as citadas instituições omitiram-se de qualquer envolvimento com todo tipo de manifestação política.

Hoje, já se sabe a razão para isso. Tanto a UNE, outrora uma aguerrida entidade que representava o pensamento político avançado da nação, bem como os diversos sindicatos de trabalhadores do país, representados por suas confederações, estão alienados ao governo federal. Há um bom tempo que essas entidades recebem vultosos recursos oficiais, e que muitos de seus dirigentes estão sendo nomeados para os cargos públicos mais importantes da República.

Como um bom exemplo, ainda temos no Ministério do Esporte o ex-presidente da UNE, Wadson Ribeiro, comandando a importante Secretaria Nacional de Esporte Educacional, órgão responsável pelo programa Segundo Tempo, onde foram encontrados fortes indícios dos maiores desvios de recursos públicos do Ministério. Wadson, estudante de medicina, abandonou a faculdade e a UNE para, em 2007, filiar-se ao PC do B e, em seguida, entrar no governo, como Secretário Executivo do Ministério do Esporte, já comandado pelo ministro Orlando Silva, demitido nesta quarta-feira.

A verdade é que motivos não faltam para a indignação do povo brasileiro. Segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), nos últimos dez anos, a corrupção desviou dos cofres públicos cerca de 720 bilhões de reais. Hoje, estima-se que os recursos, retirados criminosamente da União, estados e municípios, sejam da ordem de 85 bilhões de reais, a cada ano.

Com essa montanha de dinheiro, o Brasil poderia resolver em apenas dez anos todos os seus problemas, como, por exemplo, retirar da miséria absoluta os últimos 16 milhões de brasileiros; dotar o país de toda a infraestrutura necessária para o seu completo desenvolvimento econômico e social; e resolver definitivamente seus problemas com a saúde, a educação e a segurança pública; levando, assim, a nação ao patamar de país do primeiro mundo.

Atualmente, a população das principais cidades do planeta está protestando contra a crise econômica. Em diversos países árabes, o povo acabou de levantar-se contra ditaduras que duravam décadas e, até, já conseguiu derrubar algumas. Mas, aqui, a população mantém-se omissa e indiferente diante da corrupção avassaladora que impede o crescimento sócio-econômico do país e compromete sua condição de proporcionar ao brasileiro uma vida com melhor qualidade.

Mas, por que isso está acontecendo com o Brasil? Se os camelôs paulistas são capazes de enfrentar a violência policial pelo direito a um local para trabalhar, por que os brasileiros não são capazes de pacificamente mobilizarem-se para exigir da classe política que ponha fim à corrupção nacional?

É evidente que o brasileiro, como qualquer povo, é capaz de indignar-se e mobilizar-se para defender seus direitos. Em outras oportunidades, como “nas diretas já” e para pedir o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, ele fez isso muito bem. Hoje, o que falta ao brasileiro, para indignar-se e mobilizar-se contra a corrupção, é sua conscientização política a respeito dos benefícios diretos que ele perde com esse flagelo nacional.

Normalmente, essa conscientização é feita pela imprensa livre, por lideranças da política e das entidades não governamentais, como a UNE e as confederações de sindicatos dos trabalhadores. Mas, infelizmente, apenas uma pequena parte da grande mídia nacional vem cuidando disso. E, é muito pouco, para conscientizar uma nação desse tamanho.

 

* Djalma Figueiredo é advogado

djalmalf@hotmail.com

 

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