A história do catolicismo de Itororó

A comunidade católica de Itororó comemorou esta semana o aniversário de criação da Paróquia de Santo Antonio. A festa começou na segunda feira com abertura do Tríduo de preparação dos festejos e encerrou quinta-feira, 15, com a festa de aniversário pelos 60 anos da Paróquia. O padre Manoel Carlos, pároco local, celebrou na primeira noite. A segunda contou com o entusiasmo do padre Tony da cidade de Arataca; a terceira noite ficou a cargo do diácono Elessandro Feitosa que demonstrou já estar preparado para dar evasão a sua vocação religiosa. Na última noite o historiador Miro Marques foi convidado a subir ao púlpito para contar a verdadeira história do catolicismo de Itororó, fazendo grandes revelações da “guerra santa” que ali existiu nos primórdios da história religiosa de Itororó, quando os protestantes não admitiam Santo Antonio como padroeiro e muito menos que o templo da Igreja Matriz fosse construído na Praça Castro Alves onde já estava edificada a Primeira Igreja Batista de Itororó.

A história do catolicismo de Itororó teve inicio na mesma década da fundação do povoado de Itapuí do Colônia, década de 20 do século XX, com o advento da primeira feira livre realizada No dia 26 de abril de 1928. Dona Marica contava que a Praça Castro Alves foi o palco dos grandes acontecimentos da história de Itororó dos tempos idos. Foi nela que se realizou a primeira feira livre, a primeira manifestação religiosa efetuada por um grupo de protestantes, logo após o encerramento da feira inaugural. As primeiras manifestações políticas, apresentações dos artistas da época em teatro de mambembe, parques de diversões e circos. Apresentações dos grupos folclóricos e das Escolas de Sambas em períodos de carnaval. “Enfim, aqui era o centro das mais altas atenções da pequena população de Itapuí dos velhos tempos”. Dona Marica contava também que foi no dia 13 de junho de 1928 que aconteceu a primeira manifestação religiosa em Itapuí. João Alves de Andrade, seu marido, que sempre foi devoto de Santo Antonio, desejava desde o início, que fosse o seu santo protetor, também, o padroeiro do povoado que ele projetou. E se aproveitou do grande movimento que, a cada sábado crescia cada vez mais com o advento da feira livre, para iniciar a sua campanha em prol de Santo Antonio padroeiro. Este fato se faz pertinente, naquela época, porque no dia da primeira feira um Senhor de prenome Jorge, adepto do santo guerreiro, exibiu uma flâmula com estampa de São Jorge, o santo da lua, argüindo que fosse esse o padroeiro do povoado.

A feira de Itapuí passou a atrair gente de toda a redondeza porque antevia ali a maneira mais fácil para adquirir os produtos de primeira necessidade, antes só encontrados em Palestina Baiana ou Verruga, Ibicaraí ou Itambé respectivamente. João Alves de Andrade aproveitou-se desse desenvolvimento urbano para expor o seu pensamento de fazer de Santo Antonio o padroeiro de Itapuí. Foi então que no sábado seguinte ao da feira inicial, ele foi pessoalmente, avisar a todos os feirantes e fereiros que no próximo dia 13 de junho, consagrado a Santo Antonio, ele gostaria de fazer uma singela homenagem ao seu santo protetor e esperaria contar com as presenças de todos para abrilhantarem aquele inesquecível ato religioso. Muitos concordaram em pernoitar no povoado para assistir ao evento, passando a noite em casa de parentes ou amigos, a fim de participarem daquele grande acontecimento. Foi então que aconteceu, a 13 de junho de l928, quase dois meses depois, a primeira apresentação da imagem de Santo Antonio aos fiéis com o relato da sua história cristã lida por uma jovem da pequena comunidade católica, de pseudônimo Lia. Alguns afirmaram que Lia, a moça que leu a história de Santo Antonio, mais tarde, veio a ser Maria de Chica cunhada do Mestre Silvino, o primeiro comerciante de Itapuí. Naquele dia ficou combinado que, doravante, todo dia 13 de junho, em Itapuí, se comemoraria o dia de Santo Antonio em casa de cada um católico que desejasse celebrar aquela data, até que se construísse o templo da Igreja Católica Apostólica Romana de Itapuí para abrigar a imagem de Santo Antonio na sua definitiva morada. Porém, Lia, a moça responsável pela leitura da vida do santo, não abriu mão de ter Santo Antonio em sua casa. E foi assim que naquele primeiro período de peregrinação, Santo Antonio foi se hospedar na casa da própria moça que fez a leitura da sua vida cristã. João Alves de Andrade logo começou a elaborar um plano para construir uma capelinha aonde os fiéis pudessem se reunir para louvar e agradecer a Deus, sob os auspícios de Santo Antonio. Utilizando-se dos seus próprios recursos, pouco tempo depois, ele deu início à construção da igrejinha de Santo Antonio na principal rua do povoado que era a Rua Itabuna, portal de entrada de Itapuí. Enquanto isso, a peregrinação religiosa continuava de casa em casa, conforme a aceitação dos fiéis. Rezas de devoção como: ladainhas, o terço de Nossa Senhora, trezenário de Santo Antonio, novenário a Nossa Senhora de Lourdes, festa de Natal, de São Sebastião e todo um ciclo de orações pragmáticas foi realizado e praticado pelos leigos fiéis do catolicismo do povoado de Itapuí.

Entretanto, em Itapuí também residia um senhor muito estudioso do Evangelho de Cristo Jesus, de nome Lourival Emanuel e Silva, solteiro e carpinteiro de profissão, que se reunia com algumas pessoas na única praça do povoado, sempre no final da feira para pregar a Palavra de Deus. Este, como era de se esperar, não gostou nada da idéia de entregar os domínios religiosos daquela pequena comunidade para Santo Antonio. Então, ele reagiu, imediata e veementemente, com o seu primeiro protesto. O pseudônimo desse protestante era “Louro”. Ele tinha apoio moral, religioso e financeiro de um fazendeiro da região do Rio Gameleira que vivia cotidianamente enfiado num terno branco e montado em um cavalo também branco, ou russo. Miro Crente era o nome deste protestante. Esse, também, dizia ser um grande conhecedor das mensagens das Escrituras Sagradas. Chegou o dia 20 de junho daquele ano. Era um sábado depois daquele da entrega dos destinos do povoado de Itapuí a Santo Antonio. E assim como o Sr. João Alves de Andrade saiu avisando a todos que participaram da feira anterior para festejar o dia de Santo Antonio, “Louro protestante e Miro crente”, também saíram de barraca em barraca, de ouvido em ouvido pedindo a todos para fazerem, juntamente com eles, o primeiro movimento do protestantismo contra esse tal de “santo casamenteiro”. Assim aconteceu em 20 de junho de 1928 o primeiro movimento dos protestantes de Itapuí. Mas, em contrapartida, João Alves de Andrade apressou a execução do projeto da construção do pequeno templo da Igreja Católica, prometendo à comunidade que a igrejinha sairia, o mais rápido possível, para que todos os fiéis pudessem se reunir em orações e louvores a Deus e a Santo Antonio.

Genésio Mota de Oliveira e Otavino Mota de Oliveira que na vinda da região do Facho, do sertão baiano, havia parado em Jequié, por uns 2 meses buscando trabalho, a fim de conseguirem recursos para dar seqüência à viagem, aqui chegando, também demonstraram fortes tendências ao protestantismo. Eles haviam se despertado para a fé durante os dias em que permaneceram em Jequié. Lá era bastante comum esses gestos do protestantismo nas praças públicas ou nas esquinas das ruas largas para falar das mensagens da Bíblia. Por isso, eles se uniram a “Louro” e a Miro Crente naquela discussão. E a partir dali aconteceram grandes enfrentamentos públicos, com palavras religiosas, para evitar que o catolicismo se espraiasse na povoação de Itapuí. Travou-se ali a chamada “guerra santa”. Muitos fiéis católicos da época, na verdade, queria que o padroeiro fosse o Menino Jesus, porque a maior festa de Itapuí naquele tempo era o Natal que significa o nascimento de Jesus Cristo e começava em 20 de dezembro e terminava em 20 de janeiro do ano novo. Mas, os protestantes não queriam nem Menino Jesus, nem Santo Antonio. Eles queriam mesmo era dominar a religiosidade no povoado de Itapuí do Colônia.

Contudo, em meio a grande festa religiosa, no dia 21 de setembro de 1931, a Capelinha de Sto Antonio estava pronta e foi, finalmente, inaugurada no encontro das Ruas Itabuna e Barão Rio Branco. João Alves de Andrade mandou vir da Paróquia do Divino Espírito Santo de Poções o Pe. Pithon que empolgava a todos com seus maravilhosos sermões e da Cúria de São José de Itabuna o “vigário da freguesia”, Pe João Clímaco dos Santos que também fazia lindas homilias. Foram eles os padres que celebraram a Primeira Missa, a Missa histórica de Itapuí. Nesta celebração foi confirmada a consagração de Santo Antonio como padroeiro do lugar e o local ficou conhecido como Largo da Capelinha, aonde, posteriormente, foram realizadas todas as festas religiosas promovidas pela comunidade católica de Itororó. Porém, os protestantes agiram rápidos e em 25 de janeiro de 1931, nove meses antes da festa que marcou a consagração do catolicismo em Itapuí, fundaram e organizaram a Primeira Igreja Evangelista Batista de Itapuí tendo como sede a Praça 26 de Abril, depois Castro Alves. Mas a inauguração do seu templo só aconteceu no ano de 1932 na presença do primeiro pastor protestante Saturnino Pereira.

O registro dos seus estatutos foi feito pelo Jornal Oficial de Itabuna nº 1.057 de sábado dia 30 de agosto de 1952.

No dia 26 de abril de 1934, através da visão religiosa de João Alves de Oliveira, a comunidade católica de Itapuí realizou uma reunião em casa desse senhor, às 15 horas, a fim de proceder ao assentamento da “Pedra Fundamental” para edificação do novo templo da Igreja Católica de Itapuí a se instalar, e na verdade se instalou, aqui na Praça Castro Alves. Esta reunião contou com as presenças dos Srs: Dr. Nelson Togo Guerreiro, médico; Antonio Olympio da Silva, juiz de paz; João Alves de Oliveira, autor do projeto e oficial do Cartório de Paz; Ezelvir Dutra, comerciante de tecidos; e Joaquim Rodrigues Moreira, empresário rural entre outros. No final da década de 30, no Natal, o templo da Igreja Católica de Itororó foi transferido da Rua Itabuna para a Praça Castro Alves, ocupando um espaço bem mais amplo e mais bonito quase frontal à sua rival Igreja Batista. Mas para isto a comunidade católica contou com os valorosos esforços de João Alves de Oliveira que veio de Itabuna em 1931 com esse objetivo, lutou até que inaugurou, também, na praça principal, a Igreja Matriz de Santo Antonio de Itororó.

O antigo templo da igreja de Santo Antonio ficou desativado por muitos anos até se transformar num misto de depósito de carvão, quitanda de vender bananas e tenda de ferreiro do velho João Cardoso que ali atuou até a morte. A demolição da Igrejinha de Santo Antonio foi feita de forma melancólica e taciturna. Cada peça que caía doía no coração de cada fiel. Alguém subiu nas suas belas torres arquitetônicas, amarrou uma longa corda e vários homens puxaram até destruir totalmente a primeira casa de orações de Itororó que, passaria a seguir, a ser residência de Zezito Cardoso, depois marcenaria Mara Selma de Rosalvo Pinheiro e por último casa de material de construção A Germac e nos dois andares superiores, apartamentos residenciais.

A criação da Paróquia de Santo Antonio de Itororó ocorreu a 15 de março de 1952, tendo assumido a direção da Igreja Matriz de Sto Antonio o padre Edson Albuquerque, Italiano de nascimento, primeiro pároco local de Itororó, mas a sua posse só se deu no dia 30 do mesmo mês. O primeiro batismo realizado na Igreja Matriz de Santo Antonio, com assento no livro próprio, foi em 18 de Janeiro de 1952, tendo como batizanda uma criança do sexo feminino chamada ROSÁRIA e seus padrinhos foram: Aurelino Sampaio da Silva e Durvalina Sampaio. O padre que realizou essa cerimônia de batismo foi o mesmo Edson Albuquerque numa visita a Itororó antes de ser efetivamente nomeado vigário da Paróquia. O primeiro casamento religioso realizado em Itororó aconteceu em 30 de março de 1952. Os casandos foram: Joventino Santana e Nair Santana e celebração foi do Pe. Edson Albuquerque já oficializado pároco local…

– Relação nominal dos padres que passaram pela Paróquia de Sto. Antonio de Itororó, desde a sua criação em 30 de março de 1952:

De 30/03/52 a 07/11/54 – Pe Edson Albuquerque; De 03/01/55 a 17/06/58-Pe Cirylo Guimarães; De 19/08/59 a 13/03/60 – Pe Alcides Birch; De 16/03/60 a 08/04/61- Pe Sebastião de Oliveira Alves; De 19/04/61 a 29/06/61 – Pe João Félix R. Henrique; De 09/07/62 a 21/10/64 – Pe Calmino Carlos Freitas; De 28/03/65 a 01/03/69 – Pe Paulo Lima; De 20/03/69 a 11/12/69 – Pe Sátiro Costa; De 01/01/70 a 25/02/71 – Frei Mariângelo; De 26/04/71 a 25/12/71- Pe Sinval Bruno; De 06/03/72 a 26/04/76 – Pe Sebastião B. de Oliveira; De 12/06/76 a 24/05/79 – Pe João B. Oiticica; De 01/07/79 a 12/12/79 – Frei Ângelo e Frei Feliciano; De 12/12/79 a 18/10/87 – Pe Simeon Ibarra Torres; De 18/10/87 a 27/12/88 – Pe Henrique B. Nascimento; De 27/12/88 a 30/08/91 – Pe Francisco C. de Andrade; De 30/08/91 a 29/03/92 – Frei Estevão Cinti; De 29/03/92 a 17/04/94 – Pe Paulo Afonso Rodrigues; De 17/04/94 a 01/01/05 – Pe Moisés de Souza; De 22/01/05 a 12/10/06 – Pe. José Roque de Oliveira; De 15/10/06 até a data Pe. Manoel Carlos de Jesus Cruz.

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.b

 

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