A força das exposições e a ousadia dos pioneiros

Nos anos 50, o Bar e Hotel Atlântico na Praça Augusto de Carvalho era o ponto de encontro dos pecuaristas e comerciantes de gado e era também o palco das decisões políticas da recém emancipada Itapetinga. Nesta época os destinos de nossa cidade quer políticos, quer administrativos eram discutidos ali entre os pioneiros, fazendeiros e comerciantes, profissionais liberais não passavam de duas dúzias, mas faziam parte das decisões. Nas noites ao lado da Lanchonete O Maringá, nos reuníamos em papos animados pelas fofocas políticas e aventuras amorosas. Era já de manhã quando chega Juvino Oliveira, primeiro prefeito recém eleito, líder nato, progressista e empreendedor e nos convidou para  acompanhá-lo e segue com destino à sua fazenda. Estaciona o carro no topo da ladeira onde é hoje o Coroas Country Clube e nos mostra na parte plana à nossa frente, um trator que começa a terraplanar uma extensa faixa de pasto da sua propriedade e nos revela que ali será construído um parque para exposições agropecuárias, pois na sua visão era uma maneira de elevar o nome de Itapetinga e a sua pecuária para as mais diversas cidades do país, pois na Bahia só tinha naquela época dois ou três parques de exposições, e que nós tínhamos o melhor conjunto, a terra e clima para a pecuária. Nos empolgamos com os seus argumentos e ele passou o resto do dia levando grupos de fazendeiros e comerciantes ao local e conquistava a todos com os seus argumentos, surgindo mais adeptos prontos para ajudá-lo. Nos disse que criaria a Associação Rural que ficaria sob sua organização e os estatutos a cargo do Dr, Vespasiano Dias (seu genro) e que os pavilhões para as baias seriam erguidos em no máximo sessenta dias, seriam unicamente de madeira doadas por ele, assim como o terreno do parque. As palhas viriam do Cargão, distrito de Macarani e caberiam aos fazendeiros da região o corte e o transporte. Convocou os seus filhos Nelson e Norival para administrar a construção. Me incorporei a eles pois éramos muito amigos e por vezes até carregávamos caibros e palhas para ajudar na armação, junto a vários outros companheiros como Marcus Wanderley, Jackson Coelho e muitos mais.O dr. José Espinheira era engenheiro do Derba e tinha sido derrotado por Juvino, mas quando estava em jogo o progresso da nossa cidade resolveu colaborar e como competente engenheiro que era, construiu uma grande arquibancada de madeira que resistiu por vários anos até que Henrique Brito elegeu-se deputado federal e arranjou com o Incra verba para construir a atual arquibancada de concreto, assim como o Deputado Manoel Novaes arranjou verbas para alguns pavilhões que substituíram os de palha.Em menos de 60 dias Juvino Oliveira entregou o parque pronto e a primeira exposição foi um sucesso absoluto. Expositores daqui da região e de Feira de Santana, Mundo Novo, Ruy Barbosa, de Itaberaba, de Minas Gerais, comerciantes de zebu como o folclórico João de Quirino, contribuíram para o sucesso absoluto e já na 2ª Exposição a previsão de Juvino concretizou-se, o Governador Antonio Balbino do mesmo partido que ele, o PSD, sabedor do sucesso da 1ª exposição e incentivador desses eventos, se rendeu aos argumentos de Juvino e transferiu a sede do governo por três dias para Itapetinga. Na sua comitiva os principais secretários, o prefeito da Capital e até o general comandante da 6ª Região que se hospedou com o pioneiro Maninho Marambaia. O governador e comitiva fucaram hóspedes de Juvino Oliveira e Vespasiano Dias. A população colaborou e puseram as suas casas à disposição das comissões de hospedagem, pois naquela época os hotéis e pensões eram poucos e precários. Até o presidente da República que na época era Juscelino Kubitschek foi convidado e mandou o seu líder na Câmara Federal, o baiano Vieira de Melo, que em memorável discurso, prometeu em nome do presidente a instalação da agência do Banco do Brasil e Coletoria Federal dentro de poucos meses. Cumpriu a palavra e o Banco do Brasil alavancou de forma extraordinária o nosso desenvolvimento.Me vem à lembrança agora um episódio que me foi contado pelo próprio Juvino. Estava ele mostrando ao governador Balbino os animais expostos nas báias, quando se deparou com Davi Ferraz que nós chamávamos carinhosamente de “Velho Davis”, mas que tinha o apelido de PSD, apesar de ser um udenista ferrenho. Juvino, com seu espírito brincalhão o chamou pelo apelido: ‘‘Venha cá pesidê para conhecer nosso governador’’. Balbino, pensando tratar-se de um fanático correligionário, o abraçou dizendo da satisfação em conhecer um correligionário fiel ao partido e o Velho Davis com todo a sua descontração disse ao governador: “Não sou do PSD não, é que quando menino eu era muito treiteiro e o meu pai me chamava de PSD”. Balbino, esperto político, o abraçou e disse: ‘‘Você agora faz jus ao apelido pois na sua idade está ajuizado’’.Desde a primeira exposição nós tivemos grandes presidentes no Sindicato que por força de lei substituiu a Associação Rural, mas os destaque foram para os presidentes políticos. Desde Juvino e Espinheira, os políticos foram os canalizadores das verbas para o nosso Parque. Desde Manoel Novaes, Henrique Brito e por último Geddel, pois apesar de alguns frustrados passarem a vida a denegrir os políticos, há na classe como em todas as outras, os bons e os maus.

* Michel Hagge foi prefeito de Itapetinga por três mandatos e é líder do PMDB

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