A força da política

Certa vez me perguntaram por que, frequentemente, eu falo sobre política nesta página dois. Respondi, utilizando-me da sabedoria de Bertold Brecht, que “o pior analfabeto é o analfabeto político” e, tendo a imprensa o poder de informar e formar o cidadão eu não poderia me furtar ao tema. Além disso, não consigo calar-me frente aos escândalos e roubalheiras que envolvem o dinheiro público e o futuro de uma nação.

Há poucos dias li um retrospecto da corrupção no Brasil. O historiador José Murilo de Carvalho explicou que a transgressão da lei e o aproveitamento de recursos públicos ocorrem desde a chegada de Pedro Álvares Cabral ao país. Ao longo da história, a corrupção adquiriu sentidos diferentes. No final do Império, os republicanos falavam que o regime era corrupto, não as pessoas. Em 1930, diziam que os políticos da Primeira República eram “carcomidos”, que era a palavra que se usava na época. A palavra corrupção popularizou-se na década de 1950, quando o partido político UDN passou a empregá-la em suas virulentas campanhas contra indivíduos.

Na avaliação do historiador, há muitos casos de corrupção porque, no Brasil, esta prática compensa. Não há punição. Há uma impunidade completa. Quem não quer roubar se pode se dar bem? A imprensa pode ajudar a formar a opinião pública que vai combater essas práticas indevidas e, com isso, inibir comportamentos inadequados. Para o jornalista Clóvis Rossi, a opinião pública tem reagido contra os desvios de conduta apenas de forma virtual, com o envio de correspondências aos jornais e aos gabinetes. Sem que haja uma indignação fervendo nas ruas, você não consegue resolver o problema porque o mundo político parece não ter noção do que é interesse público.

Os eleitores precisam reconhecer o seu poder. E é isso que tenta fazer um jornalista quando denuncia, critica e aponta erros estruturais de cada governo. Uma eleição vale mais que a guerra civil. Um governo, mais que um tirano. Ainda é preciso que haja vários partidos diferentes, que não se oponham apenas sobre insignificâncias, que não lutem apenas pelo poder. A política, como afirmou o filósofo francês André Comte-Sponville, “é a guerra continuada por outros meios”. Equivale a dizer que é um dos mais formidáveis progressos da história da humanidade e a única forma efetiva de paz. Por isso o apolitismo é um erro; o individualismo, um defeito. Por isso a imprensa tenta reunir toda a população em um mesmo ideal. Ninguém luta sozinho, porque só se luta contra alguém, a sociedade só tem chances de ganhar lutando juntos.

Em dias como os que o nosso país vem enfrentando, de muita pizza, revolta e impunidade, o povo brasileiro acaba ficando descrente da política. Mas a decepção só é um bom sinal se isso demonstrar que muita gente ainda se importa, e que, alguns de nós ainda têm a capacidade de se indignar. E revoltar-se é uma resposta muito melhor do que a acomodação.

É preciso entender que ninguém pode viver mantendo-se friamente distante da política, porque política é o dia a dia. É saber que deputados trabalham três dias por semana, durante algumas horas e têm três meses de folga pagos, mais custos e passagens, enquanto a maioria da população trabalha quarenta horas semanais, onze ou doze meses por ano para ganhar salário mínimo. É ter certeza que para ser ouvido pelos “nossos” representantes é preciso ir à Brasília e invadir o Congresso – ou ter “costas quentes”. É saber que a gente vai ter, sim, que recolher um tantão de imposto, fazer economia pra hora de se aposentar, pagar plano de saúde, escola particular e entender impostos, economia e leis. É ver a gasolina continuar a custar a mesma coisa embora o barril do petróleo caia muito. É praticar, todo dia, a paciência de ver o seu compatriota desrespeitar a lei, matar, roubar, te atropelar e tentar se defender sozinho de tudo isso. Saber que a polícia está nas mãos dos desinfelizes dos nossos governantes tanto quanto a gente – e que não se pode contar com ela para nos proteger.

Política no dia a dia é tentar se manter minimamente civilizado no meio da selva. É, carregar a sacola retornável, economizar água, energia e recursos. E acima disso tudo, conseguir construir ambientes em que se pode conversar acima e além das diferenças de crença. A vida não é fácil. Apenas quando o eleitor entender que sua vida depende de política e conseguir ligar o seu voto ao efeito dele é que o Brasil será um país com P maiúsculo e os brasileiros viverão uma democracia de verdade com direitos de verdade.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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