A ditadura é inaceitável

padrão destaqueDesde que comecei a publicar meus textos pelas páginas do Dimensão, minha mãe me aconselha a evitar assuntos muito polêmicos, na tentativa de livrar-me de problemas. Desde então eu venho tentando, embora algumas vezes sem sucesso, manter o debate mais aberto, escrever textos menos imparciais e evitar maiores embates. Venho buscado, mesmo tendo opinião fechada sobre determinados assuntos, deixar margem para que o oposto se encontre e tenha voz. Hoje, no entanto, vou pedir licença aos sábios conselhos D. Isabel e entrar numa polêmica sem margem para aceitar opinião contrária porque os fatos que se sucederam nos últimos dias são simplesmente inaceitáveis.

Durante esta semana, grupos de insatisfeitos com a reeleição da presidente Dilma foram para as ruas expor sua revolta. Se já é, no mínimo estranho, admitir que, vivendo em uma democracia, os perdedores resolvam reclamar a escolha da maioria – por menor que tenha sido essa maioria, ver na frente do grupo uma faixa pedindo intervenção militar, é revoltante. Desculpe, mãe – e demais leitores – mas não há como abrir espaço para opinião contrária. Não há nenhuma justificativa, nenhuma versão, nenhuma neutralidade que seja capaz de fazer com que tiremos outra conclusão sobre este período que não seja barbárie e absurdo. A ditadura militar no Brasil foi criminosa e reivindicar por ela é apoiar velhos crimes. Manifestações populares pedindo o retorno da ditadura ou intervenção militar é uma cena digna de Teatro do Absurdo. Sugerir que os militares intervenham é uma atitude típica de um sujeito sem consciência histórica, sem o menor conhecimento do que foi a época mais negra da nossa história. O sujeito que participa de uma manifestação como essa encarna uma concepção de mundo autoritária, não consegue visualizar a própria inversão em que se encontra: uma ação contra a liberdade para garantir liberdade. Não pode existir absurdo maior.

Um velho amigo, que viveu essa época sombria da nossa história, me disse certa vez, que os maiores feitos políticos foram realizados na época da ditadura militar. Eu, no auge da minha pouca experiência – eu ainda nascia quando os jovens já iam para a rua pedir pelas Diretas– acredito que essa é uma forma perversa de fazer com que o mal seja aceito, tentando convencê-lo de que foi a melhor coisa a ser feita. É a velha história do “rouba, mas faz”.

A ditadura brasileira precisa ser encarada como aquilo que ela realmente foi: um crime bárbaro, cheio de tortura, humilhação, censura, dor, sangue, morte. Milhões de famílias ainda buscam saber o que aconteceu com seus familiares que foram simplesmente dados como desaparecidos políticos. Muita gente ainda vive o trauma dos dias intermináveis de tortura física e psicológica vividos dentro dos quartéis militares. Nada de bom que tenha acontecido nessa época pode mudar essa realidade. Nenhuma taxa de crescimento econômico, nem a chegada da TV a cores, nem a conquista do tri, nem nenhum “milagre brasileiro” pode apagar as marcas deixadas pela ditadura militar.

Eu começava a faculdade quando meu pai comprou dois livros de Elio Gaspari com os títulos “Ditadura Envergonhada” e “Ditadura Escancarada”. Eram os dois primeiros volumes da série As Ilusões Armadas, composta por cinco livros. Ele não teve tempo de comprar os seguintes – coisa que eu acho que eu deveria ter feito assim que terminei de ler os primeiros volumes – mas os dois que ficaram aqui conosco já são uma mostra bem significativa do que foi a mancha mais negra da nossa história.

Em a Ditadura Escancarada, Gaspari escreveu: “Escancarada a ditadura firmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional nº5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime a um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram Anos de Chumbo”.

Rita Almeida escreveu na Carta Maior: “O genocídio do povo judeu foi um crime. Portanto, clamar por seu retorno não é questão de opinião, é crime também. A escravidão dos negros foi um crime, portanto, clamar por seu retorno não é questão de opinião, é crime também. Estão, é preciso que fique bem claro: a ditadura militar no Brasil foi criminosa, portanto, clamar por ela não é questão de opinião, é crime também”.

A presidente foi escolhida pela maioria dos votos em eleições livres. Nossas instituições funcionam regularmente. É importante e necessário que haja uma oposição, mas ela precisa ser responsável e, acima de tudo, democrática. É possível fazer críticas duras e combativas ao Governo Dilma, mas que sejam para o avanço e não para o retrocesso da nossa sociedade. Esses berros raivosos que se espalham pelas ruas, orquestrados por Lobão – que deveria ter ido embora do país, ao invés de espalhar besteiras por aí – devem ser abafados por vozes coerentes, responsáveis e democráticas.

 

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