A desinformação é contagiosa

Sem título-1Eu escrevo este texto ainda com as articulações da mão doendo, com a cabeça pesada, com o corpo coçando e começando a ser tomado por manchas vermelhas – sintomas de um possível ataque do zika vírus ou febre chikungunya iniciada no domingo. A sensação foi das piores durante os últimos cinco ou seis dias: as dores que se espalham, a febre que não passa, o mal estar, a fraqueza… um sem número de sintomas que prostram a gente e nos enchem de dúvidas. Enquanto estava em casa de cama, ouvi Carpinejar falar no Encontro, programa liderado por Fátima Bernardes, que a desinformação é altamente contagiosa. O que pude ver nesta semana é que a desinformação vem contaminando a esmagadora maioria dos brasileiros.
Quando cheguei ao hospital, descobri que no interior nós não temos exames que comprovem se a contaminação foi feita realmente pelo zika vírus. O diagnóstico fica por conta de exames clínicos e da descrição de sintomas. O que os médicos podem fazer é, apenas, oferecer medicamento intravenoso que combate a febre e a dor. De resto, é paciência para que o vírus – se for ele mesmo – complete o seu ciclo e não afete mais a nossa saúde. Grávidas e mulheres que se preparam para engravidar não têm informações suficientemente claras sobre a segurança de seus futuros bebês porque não podem ter certeza da presença ou não do vírus em seu corpo.
Curiosa para tentar descobrir o que poderia ter me acometido, de fato, fui ler algumas matérias sobre o assunto e percebi um apanhando de dados desencontrados, incompletos e descontextualizados. Além daqueles conceitos básicos que estampam diariamente os jornais, pouco coisa se sabe ao certo.
Todos sabemos que o vírus Zika é transmitido pelo aedys aegypti e provoca uma doença com sintomas muito semelhantes aos da dengue, febre amarela e chikungunya. De baixa letalidade, causa febre baixa, conjuntivite sem secreção e sem coceira, dores nas articulações, manchas ou erupções na pele, dores musculares, dor de cabeça e dor nas costas. Algo que vá um pouco além disso, já encontra a barreira da desinformação.
Não sabemos, por exemplo, quantos forma infectados, de fato, no Brasil, por esse vírus. A dificuldade na obtenção de números confiáveis se deve ao fato de o vírus ser detectável somente por alguns dias no sangue das pessoas infectadas. Além disso, os médicos, assim como os exames laboratoriais, não conseguem diferenciar com facilidade os casos de zika de doenças como dengue e chikungunya, que têm sintomas muito semelhantes.
Além disso, apenas uma em cada quatro pessoas infectadas são sintomáticas, o que significa que somente uma pequena parcela de pessoas que desenvolvem os sintomas da infecção causada pelo vírus procura os serviços de saúde, prejudicando a contagem dos casos da doença e o estudo seguro de suas conseqüências.
Apesar de o vírus Zika ter sido encontrado ativo na saliva e na urina, ainda não há comprovação de que o contato com esse tipo de fluido possa transmitir a doença. Também não sabemos se, após contrair a doença, a pessoa fica imune ao Zika e se as pessoas que são infectadas, mas não apresentam sintomas, podem transmitir a doença.
Há ainda um grande desencontro de informações sobre o produto adequado para o combate do Aedes Aegypti. A secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, por exemplo, proibiu o uso de determinado larvicida, com base em um estudo feito na Argentina, mas o Ministério da Saúde ainda acredita na sua eficácia. Nem mesmo a relação do vírus com a temida e tão falada microcefalia ainda não é uma unanimidade entre os estudiosos.
Há cerca de um ano o zika vírus foi detectado aqui no Brasil. As dúvidas e incertezas aumentaram junto com o número de informações circulando em toda a sociedade. É a avalanche informativa que já vem sendo questionada desde o surgimento da internet, que tem um lado bom mas também um ruim, caracterizado por uma desordem noticiosa. A nós, resta apenas os cuidados com a proliferação do mosquito, com o vírus e com o alto índice de contágio de desinformação.

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário