A adversidade do setor calçadista

O presidente da Vulcabras|azaleia, Milton Cardoso, em entrevista à Folha de São Paulo esta semana, disse que a empresa deve começar a produzir na Índia dentro de dois a três meses. “Fizemos uma sociedade com um grupo indiano”, disse o presidente, sem, entretanto, revelar o nome dos novos sócios.

O empresário disse ainda que o objetivo da Vulcabras é atender o mercado interno indiano, mas, “se a lógica industrial justificar”, ele admite que a empresa possa exportar parte da produção para o Brasil.

O ano de 2011 não foi bom para a Vulcabras|azaleia. Segundo dados apresentados pela empresa, pela primeira vez, nos últimos quinze anos, a receita encolheu. No decorrer do ano, sofreu enormes prejuízos e foi obrigada a demitir 8.856 operários. Para reduzir seus custos, viu-se ainda obrigada a fechar seis fábricas, na região de Itapetinga, Bahia, e a acabar com a linha de produção em Parobé, no Rio Grande do Sul, onde a Azaleia nasceu.

O lucro bruto da empresa de janeiro a setembro de 2011, ainda sem contabilizar juros, impostos, depreciações e amortizações, foi de R$30 milhões negativos. E, quando se compara o desempenho das cinco maiores empresas brasileiras de capital aberto do setor calçadista (Alpargatas, Grendene, Vulcabras|azaleia, Arezzo e Cambuci), a Vulcabras|azaleia chama a atenção pelo tamanho de sua dívida. Em setembro do ano passado, a empresa divulgou que já devia cerca de R$ 940 milhões e que, desse total, R$ 380 milhões eram empréstimos de curto prazo, no máximo doze meses.

Dessa vez, o presidente-executivo Milton Cardoso veio a público para declarar que 2011 foi um péssimo ano para a Vulcabras|azaleia e que atribuía os resultados negativos de sua empresa à invasão de importados que, por conta do câmbio valorizado e de manobras ilegais de importação, acabou subindo mais de 40%, durante o ano. O presidente também lamentou que, em razão de preços reduzidos e impossíveis de serem igualados, os importados tivessem tomado conta do mercado de calçados esportivos, no Brasil.

Hoje, para competir com os importados e, igualmente, no mercado externo, o setor, segundo o empresário Milton Cardoso, espera pelo resultado das investigações que o Governo Federal realiza sobre a triangulação executada pela China para colocar seu produto no Brasil e, principalmente, aguarda pelo Programa Brasil Maior que promete desonerar a folha de pagamento de setores industriais.

De fato, se o resultado dessas investigações forem favoráveis a extensão da tarifa antidumping aos países que fazem a triangulação com a China, como reivindica o setor e, por sua vez, se o Programa Brasil Maior optar por desonerar a folha de pagamento da indústria calçadista, é possível, sim, reverter a situação lamentável em que, atualmente, se encontra o setor.

Para seu presidente-executivo, a Vulcabras|azaleia conta de forma urgente com essas medidas para reverter a sorte da empresa, mas, também, conta com a diversificação de mercado que surge com o investimento na Índia e, ainda, com uma atenção maior da linha de produção da empresa para as marcas femininas Azaleia e Dijean.

A Vulcabras era uma empresa calçadista de porte médio. Em 2000, seu faturamento foi de apenas R$ 130 milhões. Em 2007, tomou ao BNDES um empréstimo de R$ 314 milhões e adquiriu a Azaleia. Com essa aquisição chegou a ser a maior empresa do setor calçadista em faturamento, vendendo cerca de dois bilhões de reais, em 2010.

A aquisição da Azaleia foi uma estratégia de sobrevivência da Vulcabras que não tinha uma marca forte de calçado e, por isso mesmo, dependia do licenciamento para produzir o Reebok, que vai encerrar em 2015. A aquisição da Azaleia trouxe à Vulcabras o tênis Olympikus que, atualmente, representa 60% das vendas da empresa.

Hoje, já não existem dúvidas de que a sobrevivência do setor calçadista vai depender exclusivamente das medidas que o Governo Federal possa adotar para salvar as indústrias instaladas no país. A Vulcabras|azaleia, então, na situação difícil em que se encontra, vai depender bastante, segundo seu próprio presidente, dessas medidas, além, é claro, das medidas de gestão que a empresa também possa desenvolver.

Por outro lado, hoje, ninguém questiona a importância da Vulcabras|azaleia para a região de Itapetinga, com suas fábricas produzindo e gerando milhares de empregos. Ninguém também quer pensar na possibilidade de a empresa encerrar suas atividades na região, como o fez no Rio Grande do Sul, porque sabe que isso representa milhares de jovens desempregados e o aniquilamento da economia dos municípios em que as fábricas estão instaladas. Basta as seis unidades fechadas no mês passado.

Por isso, todos acreditam que as medidas do Governo Federal virão para salvar o setor, que a Vulcabras|azaleia dará, como diz seu presidente, a volta por cima e, mesmo que a empresa instale-se na Índia ou em qualquer outro país, as fábricas instaladas no Brasil e, especialmente, na região de Itapetinga, continuarão produzindo os calçados que vão calçar a população brasileira.

 

* Djalma Figueiredo é advogado

djalmalf@hotmail.com

 

 

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