A absurda normalidade existencial

Quando nós, os advogados de Itapetinga, nos movimentamos, em 1982, a fim de criar a Subseção local da Ordem dos Advogados do Brasil, estávamos sob a jurisdição de Vitória da Conquista, presidida, na época, pelo colega Eliezé Santos. Foi ele, todo receptivo ao nosso propósito de instalar, aqui, uma célula da OAB, para dar aos advogados militantes na Comarca, a merecida autonomia. Porém, muito embora a presidência daquela Subseccional estivesse assim representada, devo ressaltar, por um dever de lealdade e justiça, a importância da contribuição de Rinaldo Luz de Carvalho, para as nossas pretensões classistas. Empenhou-se RINALDO, pessoalmente, a fim de não nos faltar todo o apoio, inclusive material, para essa conquista.

O justo registro que ora faço, vinculando o saudoso advogado RINALDO CARVALHO, às origens da OAB itapetinguense, é também oportuno. Ocorre, no momento em que o Presidente FABRÍCIO MOREIRA SANTOS prepara as comemorações dos 30 anos de existência da nossa Ordem. Lançada a necessária informação ao leitor de Itapetinga, passo a tratar do que realmente me trouxe a este texto, com as seguintes reflexões.

É isso mesmo. Não errei, ao redigir o título; não me equivoquei no que queria dizer com ele. A vida não é direta nem exata, como, de ordinário, nos é ensinado. Bradava LILICO, o comediante da televisão: “o errado é que está certo”. E CAETANO canta a certeza, “como dois e dois são cinco”. Portanto, não erro nem me equivoco, ao dizer que a vida traz o absurdo, em muito daquilo que ela tem de normal. Os títulos são colocados, para retratar a essência do pensamento do escritor. Neste caso, quer ele mostrar o verdadeiro conflito que pretendo transmitir: a normalidade da existência e os absurdos de alguns dos seus, com perdão do paradoxo, normais aspectos.

Você come, você bebe, você dorme, dentre outras necessidades vitais, e ninguém se preocupa com isso, porque é comum e não chama a atenção. Mas, você também adoece, sente dor, sofre… Você, ainda e sobretudo, no fechamento do espetáculo da vida, morre. E, aí, neste último ato, quando as cortinas se fecham e você sai de cena, seja em um mambembe e obscuro tablado ou em um palco iluminado, todos se chocam. Vêem esse último ato da “encenação” (alguns encenam mesmo) que você viveu (mais uma incoerência), como um absurdo.

Ora, o instante da morte é tão natural (vale dizer, normal), como o instante do nascimento. Este, no consenso geral, é visto e recebido com naturalidade. Até com festa; ou melhor, sempre com festa. Já aquele, não o é. O instante da morte choca, agride, dói, faz sofrer. É recebido até com revolta, sempre visto como um absurdo. No entanto, são dois momentos normais e ordinários da condição humana: um, no início da vida, outro, no seu fim. Aliás, em nascer e morrer não há qualquer novidade. É próprio de todas as existências. Tudo o que existe, morre, um dia; tudo o que principia, chega ao fim. Nada é eterno. MACHADO já o constatara, em Dom Casmurro: “Tudo acaba, leitor. É um velho aforismo a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura, dura sempre”. Não há negar. As criações, por destinação durável que tenham, tendem ao desgaste, ao desaparecimento. Cedo ou tarde.

Por sua vez, a vida do homem e tudo o que a caracteriza, seguem a mesma regra. Ocorre, porém, que, na esfera humana, esta verdade é mais estonteante, angustiante mesmo. Ainda que se busque e se queira a interminável preservação de atos e sentimentos, há de ter-se em mente, que eles se formam com a inerente contaminação do vírus da provisoriedade. Por isso, como já dito em outra letra do nosso cancioneiro, “o pra sempre, sempre acaba” (RENATO RUSSO). Tal fato é menos absorvido, quando se trata de sentimentos. Até os amores intensos, aqueles que se dizem para a vida toda, terminam por perder a validade. Constatando-o, o poeta chegou a escrever: “que não seja eterno posto que chama, mas infinito enquanto dure” (VINICIUS DE MORAES). Foi a saída, de imperdoável beleza, encontrada pelo bardo, para não se converter em um irresignado sem recuperação.

Acima de todos esses fatos, está a morte da pessoa. Objetivamente considerada, é ela, apenas o fim do ciclo de uma existência. Nada mais. Todos sabem que é assim. Mas, quem consegue vê-la com tanta objetividade e frieza? Eu não o consigo… (ainda não o consigo. Será que o conseguirei, um dia?). E a morte, de um fato natural e sabido, certo em sua ocorrência, ainda que incerto em seu quando, passa a ser visto como um fato extraordinário e absurdo.

Nestes exatos termos, é como posso ver o desaparecimento de RINALDO LUZ DE CARVALHO. Amigo certo, de toda uma vida. Colega que compartilhou comigo, os bancos da Escola de Direito da Universidade Federal da Bahia, entre o final da década de 1960 e o início da seguinte. Advogado que veio a comigo ombrear a faina profissional, dês que, na década de 1980, nos reencontramos na Procuradoria da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. E, já antes, companheiro firme e intimorato, nas lutas da OAB. Aliás, neste campo, pudemos, lado a lado, carregar a mesma bandeira da advocacia, desde sempre. Todavia, mais identificados e próximos um para com o outro nos fizemos, quando – ele, em Vitória da Conquista, e eu, em Itapetinga – fomos levados pela confiança dos colegas, às presidências daquela e desta Subseções da Ordem estadual, no mesmo período administrativo.

Entretanto, foi além de tudo isso, a sua presença em minha trajetória, assim como, estou certo, na de todos os que tiveram o privilégio (Inevitável lugar-comum!) da sua convivência. E desse modo o foi, por ter agido ele, com o mais completo, simples e puro respeito ao outro. Carregava consigo aquela necessidade de ser solidário que só aos homens especiais se atribui. Generosidade, a marca maior do seu espírito. Era contra as injustiças de toda sorte. Indignava-se diante dos desmandos que persistem na vida pública nacional e pela incapacidade de os brasileiros evoluirmos politicamente. Não se apegou a quaisquer cargos públicos, nem buscou privilégios. Diante dos escândalos que continuaram a marcar os Governos nacionais, também na última década, passamos a divergir um para com o outro (divergência, nessa área, pontual, por uma questão de método). Jamais, porém, se permitiu qualquer veio reacionário. O único campo em que realmente nos confrontávamos, sem possibilidade de conciliação, era o do futebol. Foi um torcedor ferrenho do Vasco da Gama, eterno “inimigo” do meu Flamengo.

Pois bem. Mantinha ele, entre todos nós, plena convivência profissional e social, no gozo de uma saúde que não lhe trazia maiores percalços, quando, no final de maio último, foi acometido por uma desidratação. Dirigiu-se a um pronto-atendimento, para ser medicado. O que, de início, parecia banal e facilmente contornável, terminou por provocar-lhe o internamento em uma UTI da Capital. Sobreveio-lhe, aí, uma infecção por bactéria intra-hospitalar. É… “O que dá pra rir, dá pra chorar”, já cantou Billy Blanco. Quer dizer, a Casa de Saúde que deveria curá-lo, pode ter sido a causa do seu infortúnio. Foram 27 dias de sofrido internamento, na tentativa de debelar um inimigo que terminou por mostrar-se, no caso, invencível. A desdita tinha-se apresentado determinada, com suas garras mortais, e Rinaldo, que, hospitalizado, completara 65 anos, no dia 5 de junho, veio a falecer, às 14:05 horas do dia 22 imediato, antevéspera de São João, festa que era a sua alma.

Perdemos excelente advogado; competente procurador do Município do Salvador; dedicado chefe de família; fraterno amigo. E o perdemos de uma forma, quase que eu diria, “inaceitável”, não fosse a compreensão que hoje tenho da nossa humana caminhada existencial. Acreditar numa vida post mortem não permite, no trato do tema, a palavra inaceitável. Assim, a idéia da inaceitação é, de súbito, afastada pela crença na imortalidade. Vejo-me forçado a concluir: ainda que o queiramos, nós não morremos. Somos proibidos de morrer. Aqui está a grande e salvadora verdade: encontramo-nos condenados à eternidade. Em fugazes instantes, essa verdade até pode trazer-nos uma certa angústia: a de estarmos atrelados irreversivelmente à vida e jamais alcançarmos a “morte absoluta”, como o desejou Manoel Bandeira, ele próprio, um imortal.

Todavia, pela forma como Rinaldo se apresentou entre nós, são-lhe mais adequadas as palavras de Guimarães Rosa: “as pessoas não morrem; ficam encantadas”. Portanto, Rinaldo ainda vive. Ou, pelo menos, ficou encantado. Não só em nossos pensamentos e corações, mas como ente espiritual que alçou vôo para planos mais elevados, levando consigo a consciência de, aqui, haver cumprido com todas as obrigações a ele apresentadas. Deixou conosco, em temporário afastamento, a certeza de ter convivido com um interiorano de prosa agradável, alegre; um advogado de enorme percuciência jurídica; um altivo procurador do Município; um cidadão de extremado amor pelos seus; um escritor de rara sensibilidade; um colega solidário; um sócio de absoluta confiança; um amigo generoso e fraterno. Deixou, acima de tudo, o sinal da sua integridade, em todos os terrenos que pisou.

Enfim, consideradas as circunstâncias que, do ponto de vista físico, nos subtraíram inapelavelmente o colega e amigo RINALDO, forçoso é concluir que a ocorrência da morte – esse acontecimento natural e, por isso mesmo, normal, como já salientado – não invalida o sentimento de sua absurdidade. Meus amigos, a existência do homem (nela, compreendida, de modo especial, a morte) é, pois, normal… mas é absurda.

 

* Carlos Nova é advogado e

Procurador do Município da Cidade do Salvador-BA

 

 

Um comentário para “A absurda normalidade existencial”