34 anos depois…

Sem título-1Afastar-se emocionalmente do objeto de estudo facilita uma melhor observação e a descrição do mesmo. No entanto, o objeto que me proponho a observar e descrever sua importância e características está impregnado em minha pele, em minha alma. Mas mesmo assim, e tendo a consciência do espaço limitado para tão longa história, tentarei mostrar de forma que possam criar uma imagem do que foi e é representativo para a história da cultura e arte de Itapetinga.
Como já falei noutro momento, aqueles que se dispuseram a contar a história de Itapetinga, não deram importância aos grupos de arte e artistas. Tentarei então, ir dando pinceladas por aqui, criando um quadro, recortando e apresentando cenas, para que possam ter noção de histórias e momentos do nosso movimento artístico-cultural.
Consta em estudos, que os grupos de teatro ao longo das décadas de 1970 e 1980, tinham umas características bem peculiares, especialmente aqueles de cidades de médio e pequeno porte, o que enquadrava e enquadra a nossa. Buscavam uma independência daquilo que identificamos como um paradigma da indústria cultural. Não significava uma ruptura absoluta necessariamente, do conhecido como mercado cultural, mas uma busca de um espaço de autonomia. A aproximação dos setores populares, levando o debate de questões sociais e políticas, também fizeram parte desse momento. Mas, no nosso caso, mesmo tendo esse perfil, nada era maior do que a vontade de estarmos juntos e fazer arte.
Foi nesse contexto, em 26 de fevereiro de 82, a primeira reunião no salão da Sociedade dos Artífices e Operários de Itapetinga, do Grupo de Teatro Liberdade União e Amor (Grupo L.U.A.). O seu idealizador, José Antonio dos Santos, o conhecido Zé Magrinho, que tinha participado do Grupo Pau de Arara, que vivia e transpirava a política dos movimentos estudantis naquele momento, depois de uma experiência no Rio de Janeiro e passado um tempo no Tablado, escola de teatro de Maria Clara Machado – escritora consagrada, autora de “Pluft, o fantasminha”, “O cavalinho azul” dentre outras peças-, convidara alguns amigos para fazer teatro.
O grupo, em mais de uma década, montou mais de dez peças, outro tanto de recitais, fez inúmeras apresentações aqui e em diversas cidades da Bahia, inclusive participando de Festivais de Teatro no interior e na capital. Em alguns desses festivais, conquistou diversos prêmios, na categoria ator, diretor e melhor espetáculo.
Seus membros viajavam periodicamente para Salvador em busca de formação, para depois, socializar com os demais.
Através de componentes participou da Diretoria da Federação Baiana de Teatro, a mais antiga do Brasil, hoje já extinta. Acompanhou o movimento nacional de teatro, representando a Bahia em encontros e congressos nacionais, organizados pela Confederação Nacional de Teatro Amador (também já extinta). Essas organizações lutavam pela liberdade de expressão, valorização dos movimentos culturais e por um país democrático.
O grupo de teatro LUA, já teve mais de 40 participantes. Suas reuniões/oficinas aconteciam ordinariamente aos domingos a tarde. É possível imaginar mais de 40 jovens e adolescentes reunidos para fazer arte no domingo a tarde? E não eram apenas encontros para fazer exercícios de teatro. Nós estudávamos e debatíamos temas culturais. Nós estudávamos teatro. Tínhamos também um grupo musical. Quase sempre viajávamos com as duas linguagens artísticas.
Temos muitas histórias, com apresentações em grandes teatros, ruas, praças…, uma passagem considerada bem interessante foi quando resolvemos montar “Balada de um palhaço”, de Plinio Marcos, cujo texto foi conhecido em um encontro de teatro em Curitiba. Foram dois anos para conseguir o texto, e mais um para levantar recursos e negociar os direitos autorais. Os detalhes só num livro para contar.
Jurema Penna, escritora e atriz baiana, de cinema, teatro e televisão (Irmãos coragem e Selva de Pedra da TV Globo, anos 70), aplaudiu de pé a uma apresentação do Grupo LUA, no Teatro Municipal de Ilhéus nos anos 80 e descarregou elogios sobre a apresentação de “Dois perdidos numa noite suja”, de Plínio Marcos, a montagem de maior repercussão do grupo.
Hoje, distante 34 anos do primeiro encontro, ainda me sinto embevecido daquele momento. Eu e todos aqueles que participaram de uma história que marcou por apontar caminhos, abrir cortinas e vislumbrar futuro. O poeta Gilson de Jesus, assim falou sobre o grupo: “esses companheiros revolucionaram nossa cultura e ajudou a elevar a sabedoria da arte do palco e da vida”.
No último dia 26 de fevereiro, nos reencontramos para celebrar a amizade, o amor e a história do L.U.A.. Segue em discussão um projeto de ação cultural para novembro. Vamos aguardar.
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* Antonio Maciel é pedagogo

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