Quando o dia fica pequeno

Quando havia lá na Fazenda Liberdade uma tarefa longa a ser cumprida, meu pai costumava dizer que o dia parecia estar ficando cada vez mais curto. Mesmo assim cumpria-se a jornada como mandava o figurino, num ritual quase sagrado. Rara a situação em que era necessário apelar para o mutirão, como ter que cobrir uma casa em dia nublado ou terminar de fazer o plantio na roça, para que a chuva não chegasse antes do serviço concluído. O oposto daqueles que vivem na ociosidade, para quem o dia não acaba nunca. Sabemos que o dia é sempre o mesmo e que não muda nem para mais e nem para menos. Fica-nos a impressão de que poderia ter sido um pouco mais longo, quando precisamos de mais tempo para concluirmos uma tarefa importante. A impressão que tenho é que os dias no campo são melhores aproveitados, sem que haja necessidade desta correria louca, desse estresse infernal que deixa as pessoas constantemente irritadas. Quando as coisas não são realizadas em seu tempo real, parte-se atropelando tudo e todos para atingir o que costumam chamar de metas. E aí vale tudo, podendo até a noite virar dia. Não se dá a mínima importância e nem se leva em conta se algumas pessoas incluídas nesse mutirão estão cansadas ou fatigadas. A ordem de cumprir metas passa por cima de tudo, tal qual um trator devastando toda a floresta. Após ter sido cumprida, um simples obrigado (quando vem) e um leve tapinha nas costas, até que tudo se atropele novamente lá na frente e volte ao ponto inicial. Quando a coisa toma tal rumo e vira rotina, é sinal de que não anda bem e é chegada a hora de mudar de rota. No campo é o tempo que nos leva. Os afazeres são cumpridos de maneira natural e quem determina a hora de iniciar e terminar, é a natureza. Se o dia amanhece, é hora do batente. Se o dia anoitece, é hora do descanso. Lá não há cartão de ponto. Se a chuva chega quando dela mais se precisa, é hora de respeitá-la. O relacionamento harmonioso e respeitoso entre trabalhador e patrão é fundamental para qualquer atividade. Se o trabalhador estiver realizando sua tarefa no meio do tempo, na roça ou no roçado, é preciso se proteger e deixar a ferramenta de lado, principalmente se a chuva vier forte, com trovões e relâmpagos. O respeito à natureza é algo sagrado. Não há espaço para blasfêmias. Passado aquele momento, é hora de retomar o batente. Da mesma maneira que se diz que há trabalhador ruim ou preguiçoso, há patrões que não valem um tostão furado ou a farinha que comem. No meio urbano muitas horas são roubadas sem que se perceba. Quando o trabalhador cumpre sua carga horária normal e faz jus às horas extras (aquelas que ultrapassam no seu dia a dia normal), nada mais justo que seja remunerado por elas. O erro, a incompreensão e a injustiça se faz quando suas horas são usurpadas, como se fosse obrigado a exercer aquele tempo extra a mais, sem direito a qualquer remuneração, situação praticada por muita gente boa, com se diz por aí. E é por isto que muitos enriquecem às custas do trabalho alheio. Quando contestados, o argumento ou artifício utilizado é a arrogância, quando não a perseguição ou promessa de demissão. Quem quiser continuar no emprego, terá que aceitar as regras do patrão. Caso contrário, que vá bater em outra freguesia. O certo é que ninguém consegue conviver sem o trabalho, seja ele de que natureza for. Mas é preciso que toda tarefa seja feita com prazer e muitas delas até com muito amor, para que o trabalho dê os frutos almejados. Não há nada mais triste que ver alguém fazendo algo apenas por necessidade, sem demonstrar o mínimo prazer no que faz. É nestas horas que os dias se tornam longos e enfadonhos, fazendo com que o executor da tarefa passe a maior parte do tempo consultando o relógio, como se dependesse unicamente daquele objeto para concluir o seu dia. Outro dia, ao parar em um posto de gasolina para abastecer o carro, não pude deixar de ouvir o diálogo entre o frentista e um gari, jovem, comentando sobre a má impressão que algumas pessoas ainda tem sobre a profissão de gari, onde muitas se envergonham em cumprir tal tarefa. Falou sobre as vantagens da profissão, as horas de serviço a cumprir, o espaço mapeado a ser varrido e não demonstrou qualquer insatisfação naquilo que estava fazendo. Muito pelo contrário. Sem perceber, entrei na conversa, argumentando que melhor seria que as pessoas fossem mais educadas para que não sujassem tanto as ruas, fazendo com que tal trabalho se tornasse mais fácil. Um deles fez um comentário que seria preciso muitas campanhas educativas na população, pois tal ato era praticado tanto por pobres, quanto por ricos, embora, somente os menos favorecidos é que levavam a fama. E citou até um ditado popular na sua maneira de ver: “Pinto come milho, mas papagaio é que leva a fama”. Estas pequenas histórias surgem dia após dia em nossas vidas e só precisam ser absorvidas e transcritas para podermos captá-las no meio de pessoas tão simples e com quem convivemos diuturnamente. Este ofício que venho tentando exercer há um bom tempo, objetivando levar aos leitores algo de útil, é também uma tarefa com a qual me dedico de maneira prazerosa e às vezes até penosa. Não muito raro, quando dou por mim, chego a me perguntar se não estou me intrometendo num campo que não é meu e no qual não possuo o real domínio. Mesmo sabendo que quanto mais se lê mais se aprende, tenho cada vez mais receio em escrever. Peço a compreensão e o perdão dos leitores por algumas falhas por vezes cometidas aqui neste espaço. Para a página ficar mais cheinha, segue aí um texto mais curto.

 

De olho no roçado

Sempre que presenciava os trabalhadores roçando as mangas lá na fazenda, o que mais me chamava a atenção era a diversidade da vegetação, desde aquelas mais rasteiras até as mais altas. E ouvia com atenção a denominação que cada um dava. No tempo do meu pai era tudo mais fácil, pois ele conhecia uma infinidade delas, conhecimento que passou para Salvador, o irmão mais velho, que foi quem conviveu mais com ele. Mesmo assim deu para aprender alguma coisa. Esta semana, em conversa com ele e a mana Noemi, lá na casa da minha mãe, expressei a vontade de elaborar por alto uma seleção de algumas destas plantas, relembrando os nomes. À medida que íamos puxando pela memória novos nomes iam surgindo. E olhem que a relação não é pequena. Muitas são conhecidas apenas pelo nome popular. Umas são mais fáceis de extinguir com o manuseio de produtos químicos e outras mais resistentes. Começamos enumerando algumas: cabo de escoupa, marinheiro, caiçara, assa-peixe e assa-peixe de touceira, velame, camará, muzê ou tambuí, malva branca e cascuda, bacupari, canjuão, cega-cega, ôi de boi, tatarena (da canção de Elomar, que diz: “tatarena vai rodar/ vai botar fulô/ marela de uma vez só/ prá ela de uma vez só…”. Tem também jurubeba, laranjeira brava e uma quantidade enorme de plantas com espinho: maria mole, cansanção, jurema, cruzeta, Santo Antonio (de flores viçosas e bonitas), calumbi, unha de gato, serrotão (conhecida também como quebra foice), devido à dureza e resistência do caule, o que leva muitos roçadores a reclamarem quando encontram um eito considerável pela frente. Há também uma vegetação rasteira e cheia de ramas, denominada tingui, que possui uma erva que causa a morte de muitos animais, quando ingerida. Quando o animal come tal planta e morre, é costume ouvir dizer que ervou. Deve haver algum pesquisador que registrou ou catalogou tal vegetação. Pode ser que tenha nomes diferentes, a depender de cada região. Muito se fala por aqui em um tipo conhecido como madeira nova, que para alguns deve ser cortada, mas para outros ainda irá servir de madeira para o feitio de cercas, frente à dificuldade em encontrar madeira de lei para tal finalidade, em tempos que a fiscalização do IBAMA não está pra peixe. Boa parte dos herbicidas utilizados consegue extinguí-las, quando utilizados de forma adequada e na dosagem correta. A vegetação mais resistente continua sendo o marinheiro, que às vezes só são extintas com a utilização de tratores para arrancá-los pela raiz. Faz muita falta quando as queimadas atingem as mangas e pega todo mundo desprevenido. Com seus galhos fáceis de cortar ou quebrar, é a melhor opção para preparar os ramos para apagar o fogo. A natureza tem dessas coisas. Não sei qual a dimensão que a utilização indiscriminada de herbicidas e tantos outros produtos químicos irão causar no solo. Coisa boa certamente é que não deve ser.

 

 

* Carlos Amorim Dutra (Kalú) é médico Cardiologista, médico do Trabalho e músico

e-mail:carloskdutra@gmail.com

 

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