23 anos sem Agostinho Costa Santos

Filho mais velho de uma prole de 18 irmãos, ainda criança Agostinho começou a trabalhar para ajudar os pais, Seu Antonio Costa Santos e Dona Joana Pereira Ramos. Inexperiente, iniciou a lida como aguadeiro e lenhador e ao adentrar o cerrado para tirar lenha se apaixonou por pássaros, sonho que só realizou nos últimos anos de vida, quando instalou um lindo viveiro numa área apropriada de sua residência, com registro no IBAMA.

Agostinho Costa Santos é natural de Tobias Barreto e nasceu a 12 de agosto de 1924. Na década de 40, com mais ou menos 16 anos de idade, conseguiu um empréstimo com o conterrâneo José Barreto, na ordem de vinte mil réis, e saiu de Sergipe com direção à Bahia.

Em sua companhia, o tio Daniel como orientador. Três burros carregados de sandálias “sargabunda”, apito de chamar nambu, espingarda para caçar juriti e algumas mercadorias para fazer dinheiro na viagem. Traziam também muitos couros de boi que lhes serviram na viagem para forrar o lamaçal que na época era só o que se via quando se aproximava do Sul da Bahia, e assim permitia a passagem da tropa sem perigo de atolar. Algumas vezes tiveram que desviar o caminho porque ficaram sabendo que Lampião e seu bando estavam na frente.

Mascateando, de cidade em cidade, a comitiva chegou a Itabuna, na região Grapiúna, como era conhecida naquele tempo. Seguindo viagem, chegou ao distrito de Itapuy.

Ainda no cerrado do sertão, entre Bahia e Sergipe, procurava água para beber porque as cabaças já haviam se esvaziado. De repente avistou um lajedo e logo imaginou: – “Perto de uma pedra sempre existe água”. E para lá se rumou, passando em meio a um rebanho de cabras, cabritos e bodes, quando deu de cara com uma onça, que ali estava tentando almoçar um bom cabrito. O susto foi tão grande que ele soltou um tremendo grito, espantando a onça que correu para um lado e ele correu para o outro, caindo em seguida. Passado bom tempo, depois de se refazer do susto, seguiu viagem.

A comida, quase sempre, era rapadura com farinha e de quando em vez uma bananinha para variar. E à noite na rede, até a hora de dormir, contava umas piadinhas, pois isso, desde aquele tempo já era sua especialidade na arte do humor. Entre umas e outras, contou uma piada que fez todo mundo rir. Contou ele que andava pelo mato fechado e avistou um riacho à sua frente e nele apareceu uma pinguela. Atravessou o riacho por cima da dita pinguela e já do outro lado lhe deu vontade de olhar para trás e percebeu que a pinguela estava retorcida. Aproximou-se para ver o que tinha acontecido e descobriu que a pinguela era uma cobra jibóia, que de tão velha devia estar usando óculos de graus.

De residência fixa em Itapuy, a cada trimestre Agostinho retornava a Tobias Barreto, para buscar novas mercadorias. E assim, aos poucos, ele foi trazendo seus familiares que lá estavam.

Em abril de 1948, já de atividade robustecida, registrou seu primeiro comércio varejista e em seguida inaugurou a primeira grande indústria de calçados de Itororó, A Sergipana, que empregou, naquela época, mais de 50 trabalhadores do ramo calçadista, diretamente.

Era muito comum naquele tempo se trocar mercadorias por fazendas nesta região e assim surgiram várias propostas para permutar terras por sua produção de artefatos de couro. Agostinho sempre respondia: “Não sou minhoca para gostar de terras”. Uma de suas paixões era a construção civil. Por isso, construiu vários prédios na antiga e na nova cidade de Itororó, tendo merecido Menção Honrosa da Câmara de Vereadores de Itororó, proposição do então Edil Tiodomiro Marques Silva.

Em 1948, casou-se com Odete Ramos Santana e recebeu de herança uma fazenda de criatório na região de Palmares. Jovem idealista, Agostinho logo quis mostrar sua habilidade como produtor rural. Ampliou a área da propriedade, comprando algumas partes dos vizinhos, formando uma fazenda bem mais ampla que mais tarde vendeu-a para comprar a fazenda Boa Vista que fica aqui bem pertinho ao oeste da cidade e que até hoje é mantida pelos seus herdeiros.

Em 1957 aconteceu o assassinato do famoso bandoleiro Zé Mocotó que, por marcação do destino, tombou sem vida dentro da casa do já político Agostinho Costa Santos e em conseqüência sua querida esposa sofreu grande abalo, vindo a falecer meses depois por causa daquele susto.

Agostinho passou oito anos viúvo, sendo apelidado de “Az Preto”, porque não se separava do luto.

Em 1958 é lançada pelos amigos e correligionários a sua candidatura a Prefeito de Itororó e no dia 28 de agosto, dia do seu aniversário, os companheiros lhe fizeram uma surpresa comunicando-lhe a decisão do grupo. Mas Agostinho recusou, argüindo não ser político com tanta ambição. Quinze dias depois, outra comitiva, desta vez, chefiada por seu grande amigo Wilson Leão, chegava à sua casa e acabou convencendo-o de que teria uma missão a cumprir, dirigindo os destinos desta terra. E ele acabou aceitando. Foi candidato três vezes, mas só foi eleito de direito e de fato em 1966, quando seus adversários, reconhecendo sua liderança, optaram por apoiá-lo como candidato único. Obtendo 2.153 votos. Foi quando ouviu do seu mediador na união dos grupos, Henrique Brito: “Companheiro Agostinho, você nunca perdeu uma eleição, ganhou todas, mas não levou”. Na sua gestão, a educação teve prioridade. Logo aumentou o quadro de professores municipais de 46 para 98, tendo trazido muitas professoras da cidade de Caetité e uma delas, mais tarde, veio a ser a sua esposa com quem teve duas filhas, que junto às três do primeiro casamento, formam o número de cinco mulheres. A professora com quem ele se casou foi Irma Silveira que hoje é honrosamente sua viúva.

Agostinho Costa Santos, quando saiu da política, passou a negociar com gado de sociedade com seu velho amigo e compadre Pinto da Cachaça. E foi na parceria deste, que se revelou o maior contador de piadas que Itororó conheceu.

Em 13 de abril de 1989 o velho Agostinho nos deixou definitivamente, mas continua vivo a cada velório que freqüentamos, pois, Agostinho Costa Santos é sempre lembrado com alegria, porque onde ele estava a tristeza não tinha vez. Agostinho Costa Santos foi para Itororó um baiano que nasceu em Sergipe…

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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