2014: um ano pra ficar na história e/ou na memória?

warsaw2014Somos um povo de muitas histórias desde a formação do nosso estado-nação no século XVI e elas se acumularam com a consolidação da democracia em 1988 e, de lá para cá, não cessaram. Mas, cabe retomar a indagação: seríamos nós brasileiros um povo de muitas histórias e com pouca memória? Visualizo que 2014 será um daqueles anos que ficarão para a história. Na memória, talvez não. Só o tempo nos dirá.

O ano de 2014 nos remete a história e a memória por alguns fatos. Quando relembramos que em 1950 perdemos a Copa do Mundo em “casa”, no Rio de Janeiro, para o Uruguai. Não tínhamos imagens televisivas em alta definição, mas aquelas em preto e branco que chegaram aos televisores e as narrações que percorreram as ondas do rádio decretaram duramente nosso luto futebolístico na época. O cenário e a festa para a final em 2014 terá o mesmo palco, agora chamado de “novo” Maracanã e será transmitido em áudio e imagens de alta definição para bilhões de pessoas em todo o mundo. Contudo, a copa no “país do futebol” poderá ficar na história e na memória dos brasileiros se levantarmos a taça do hexa ou marcará duramente nossa memória se perdermos. Qual será mesmo o legado da copa para nossa história e memória?

Outros acontecimentos já marcaram este ano de 2014. Em 31 de março completamos 50 anos do golpe civil-militar, “um dia que durou 21 anos” e que marcou a história e a memória dos brasileiros, sejam eles políticos ou cidadãos comuns. Em 17 de abril perdemos o escritor colombiano que foi prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Marquez, o qual redefiniu a escrita literária com seu realismo fantástico misturando superstição, fantasia e realidade. Seu legado ficará marcado na história e memória do gênero literário. Já em 25 de abril completamos 30 anos que a Câmara dos Deputados em 1984 se reunia para votar uma Emenda Constitucional (conhecida como Dante de Oliveira) a qual, após duas décadas de ditadura militar restabelecia eleição direta para Presidente da República no ano seguinte. A proposta de eleição direta foi derrotada, mas inspirou a maior campanha cívica da história do Brasil, o povo foi às ruas pelas Diretas-Já!

No cenário político 2014 também será um ano expressivo para as mudanças que se avizinham para o país e para a Bahia. As eleições para presidente, senador e deputados federal e estadual que ocorrerão em outubro representarão, de um lado, um pouco do espectro dos anseios da população que deseja continuar com o projeto de desenvolvimento econômico e social e avançar com mudanças. De outro lado, a contestação dissonante desse projeto que, a meu ver, não indica avanços. Mas o povo já conhece a história desses projetos e, se bem souber, pode recuperar e utilizar sua memória para documentar e refletir por quais itinerários trilhar.

No cenário local, 16 de abril de 2014 ficou para a história de Itapetinga (espero que também na memória do povo), quando pela primeira vez, a mesa diretora da Câmara de Vereadores antecipa suas eleições, mas de forma contundente a oposição se levanta, o judiciário suspende a eleição e ratifica “que a convocação [do pleito eleitoral] fere o princípio da razoabilidade e da moralidade”. E vejam que ainda estamos no segundo trimestre do ano. Contudo, não dá pra deixar a memória esquecer (e que não fique marcado negativamente na história): o fechamento do Parque Zoo Matinha, as milhares de demissões e fechamento das unidades da Vulcabras|azaleia, a revitalização do Rio Catolé, o agravamento da crise do comércio e seu impacto nos aluguéis e na diminuição dos postos de trabalho, a ineficiência dos serviços básicos de saúde, a redução das políticas culturais e o aumento da criminalidade.

Não dá para esquecer de nossa Universidade, a UESB. Ela também tem um ano decisivo pelos rumos que serão dados nas eleições para reitor e vice-reitor. Com três projetos em disputa (duas chapas de oposição e uma de situação) no dia 07/05 docentes, técnicos e estudantes dos três campi (Itapetinga, Vitória da Conquista e Jequié) poderão marcar alguns pontos na história e memória do ensino superior do sudoeste baiano.

Os resultados dessa eleição também estão implicados com o futuro desta cidade, uma vez que a UESB colabora para o desenvolvimento científico, tecnológico, social, educacional e cultural através dos profissionais que forma e a disseminação dos conhecimentos que produz no ensino, pesquisa e extensão, afinal, uma instituição que prima pela excelência acadêmica e justiça social, necessita ser socialmente referenciada.

Neste sentido, acreditamos que o próximo gestor da UESB terá como principal desafio lutar incansavelmente pela garantia da autonomia didático-científica, administrativa e financeira da instituição e, consideramos que esta tarefa se efetiva com postura política e crítica frente às políticas de estado que paulatinamente intencionam desresponsabilizar o governo estadual do financiamento da educação superior no estado da Bahia. A nosso ver, dentre outros desafios, urge que se aprimore o modelo de gestão acadêmica de multicampia e, sobretudo, que a descentralização administrativa e financeira confira maior autonomia decisória aos campi e seus respectivos departamentos.

Mas, vale ressaltar que, um povo pode sim cotidianamente mudar os rumos de sua história e, para isso, sua memória não pode esquecer (e deve lutar incessantemente contra) a preservação dos recursos ambientais, a violência contra mulher, o preconceito e a discriminação racial, a homofobia, a injustiça social, a toda e quaisquer formas de violação dos direitos humanos. E, acrescente-se, para ficar na memória, que é imperativo lembrar que NÃO #somostodosmacacos, SOMOS TODOS ÁFRICA!

Por fim, gostaríamos de registrar nossas felicitações e aplausos a iniciativa do legislativo municipal, que na sessão especial realizada na última quarta-feira (30/04) na Câmara de Vereadores oportunizou à comunidade a retomada da história dos duros anos da ditadura civil-militar no Brasil e como pano de fundo proporcionou nosso encontro com a saudosa memória do ex-guerrilheiro itapetinguense Rosalino Souza. Esta ação certamente qualificou o debate no parlamento de nossa cidade pois, para além de constar nos registros das atas legislativas, revisitamos a memória e a história para demarcarmos e pensarmos melhor o campo da experiência democrática.

Finalizo com uma advertência do poeta grapiúna José Delmo: “Se não vigiarmos a vida eles escreverão a história e no futuro neles hão de acreditar”. Eis, portanto, nosso desafio: fazer história e manter viva a memória.

 

 

* Reginaldo Santos Pereira é professor do curso de Pedagogia da UESB, campus de Itapetinga.

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