16 de janeiro: um ano sem nosso artista maior

Desde a sua partida, em 16 de janeiro do ano passado, ficou um vazio no meio artístico. Entre as vozes que representam a cultura itapetinguense já não ouvimos mais aquele bom conselheiro, observador arguto, expressão traduzida no dicionário como sendo a qualidade de pessoa “de espírito vivo, penetrante, capaz de perceber com rapidez as coisas mais sutis”.

São Félix era assim mesmo. Tinha sempre um comentário, uma piada ou um conselho. Dos milhares de estudantes que conviveram com ele nos corredores do Ginásio Agro-Industrial, local que veio a se tornar sua residência oficial nos anos 70, são inúmeros os depoimentos de gratidão pelos conselhos e até pela proteção de algumas peripécias que são relembradas hoje por ex-alunos que já amadureceram na idade e compreendem o sentido das palavras ou das atitudes com que eram tratados pelo ilustre morador daquele espaço que ele mesmo denominou de Refúgio do Artista.

Mas essa percepção servia também para alimentar sua verve criadora, calcada na simplicidade dos traços e na expressividade das coisas e seres representados.

“O vaqueiro e o cavalo” esculpido em cimento, exposto na Rótula dos Pioneiros e que representam os primeiros desbravadores de Itapetinga, denotam certo vigor que era necessário à época. Derrubar matas, afugentar índios, criar gado em terras pouco exploradas exigiam bravura e força física. Na mesma praça, um lavrador com seu cachorro estão sentados ao lado do “fogão” improvisado com pedaços de paus. São Felix soube expressar estas coisas e imprimir sua marca pessoal em cada peça produzida.

Sua produção artística é eclética porque retratam pessoas, animais, pássaros; falam da paixão (Casal de namorados), da religiosidade católico-cristã (São Francisco de Assis) ou Afro-brasileira (Orixás, que ajudou a construir); contam a história de Itapetinga desde os desbravadores (Rótula dos Pioneiros) até os dias atuais com fábricas, universidades e todo progresso da cidade (O Estudante – na entrada do Campus Juvino Oliveira – UESB).

Uma cobra sobre o Globo terrestre (no Parque Zoomatinha), para ele, simbolizava a “Maldade humana”, sentimento alimentado pela inveja, pela ganância, pelo mau caráter. Mas São Félix esculpiu também o São Francisco de Assis, postado logo na entrada do Parque, cercado de aves e animais.

Se a ganância ou qualquer outro sentimento doentio que alimentou a maldade humana tirou o artista do nosso convívio e se choramos a perda trágica de um amigo e mestre das artes manuais, lembremos das palavras de São Francisco na conhecida Oração da paz: “Onde houver tristeza, que eu leve a alegria”.

Júlio Barbosa, o São Felix, foi senhor de seu tempo. Soube enxergar a possibilidade de reencontrar o seu pai que o havia deixado bem pequeno, com a mãe, lá na cidade de São Félix, no Recôncavo baiano. Veio para Itapetinga e realizou seu objetivo. Mas aqui fincou raízes com seu futebol, com a arte de pedreiro aprendida na adolescência em sua cidade natal e com a capacidade de dar vida e sentido de arte ao concreto e a madeira. E foi com esta última que se tornou consagrado pela população, cidadão honorário de Itapetinga e Doutor honoris causa em artes manuais.

Gostava de repetir um bordão, essência do amor que devotava a esta terra “Itapetinga, ainda que o destino nos separe, serei aquele que um dia te embelezou”. Aqui o comedido artista dava lugar ao cidadão consciente do seu papel e da sua produção. Não se conhece na região ou no Estado alguém que tenha feito tantas obras para exposição pública durante tão longo período de criação.

É por isto que São Félix de Itapetinga, o Julinho de São Félix e Cachoeira, é memória presente para a nossa geração e para as outras que vierem.

 

Por Nilton Cirqueira Santos – pedagogo e fotógraf

 

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