‘‘Um gesto de honestidade vai muito bem’’

Esta semana, no site Observatório da Imprensa, Muniz Sodré escreveu um interessante – porém bem pessimista – texto sobre violência e as fatalidades das chacinas. Sodré analisa de maneira bem desanimadora a medida controladora de venda de armas anunciada pelo governo norte-americano. Ele compara as chacinas norte-americanas às matanças sem motivo aparente nas favelas brasileiras e, por isso, diz ser difícil um prognóstico otimista quanto à fatalidade de uma nova chacina. Vige, então a Lei de Murphy – se há uma possibilidade de uma coisa dar errado, vai certamente dar errado.

O autor termina seu texto dizendo: “Não é, assim, exagero pessimista invocar uma bela expressão do japonês coloquial para resumir tudo isso: Shigata ga nai! Quer dizer: não tem jeito!”

Normalmente eu poderia até concordar com o final negativo do texto de Muniz Sodré e afirmar que, não só nos EUA, mas a violência e todo este nosso mundo não tem mais jeito mesmo. Mas esta semana começou, para mim, com uma mensagem extremamente otimista. Não estou falando de nenhum livro novo de auto-ajuda nem de nenhuma frase de Caio Fernando Abreu (o mais novo queridinho dos usuários do facebook) que li recentemente, mas de uma história real que deveria ter mais espaço nos jornais.

Na segunda-feira circulou pelas redes sociais uma história de honestidade tão rara que chegava a ser difícil de acreditar. Cheguei a fazer uma busca pela internet para checar a veracidade da história e, em alguns jornais espanhóis, lá estava a manchete: “Honestidade do corredor de longa distância”. Segundo o jornal El País, no último dia dois de dezembro, o atleta espanhol Iván Fernández Anaya estava em segundo lugar em uma corrida de cross-country em Burlada, Navarra, pouco atrás do líder da corrida, o queniano Abel Mutai – medalhista de bronze na corrida de obstáculos, 3.000 metros nos Jogos Olímpicos de Londres. Quando entraram na reta final, ele viu o corredor queniano – o vencedor certo da corrida – equivocadamente parar cerca de 10 metros antes do acabamento, pensando que ele já havia cruzado a linha de chegada. Fernandez Anaya, então, fez o que poucos fariam: permaneceu em segundo, gesticulando para que o queniano percebesse o erro e seguiu atrás dele, quase o empurrando para o final da prova.

Quando entrevistado, Anaya disse que não merecia ganhar a prova. “Acho que é melhor o que eu fiz do que se tivesse vencido nessas circunstâncias. E isso é muito importante, porque hoje, como estão as coisas em todos os ciclos, no futebol, na sociedade, na política, onde parece que vale tudo, um gesto de honestidade vai muito bem”.

Meu sempre lembrado pai costumava dizer que ninguém deve se orgulhar de ser honesto porque esta característica não passa de uma obrigação do ser humano. Eu ainda acredito que se todos cumprissem com esse nosso dever de sermos honestos, de sermos sérios e corretos com o outro, uma corrente do bem facilmente se formaria, melhorando esse nosso já desacreditado mundo. A gente ia conseguir ver que, ao contrário do que acredita Muniz Sodré e tantos outros, esse mundo ainda tem jeito, sim, e que somos capazes de deixá-lo cada vez melhor, nos esquivando da temida Lei de Murph. Para isso, precisamos assumir a responsabilidade pela realidade que cada um de nós temos criado. Se hoje ainda não temos paz, é sinal de que ainda não evoluímos, não nos tornamos melhores o suficiente para desejá-la acima de tudo; acima do desejo de vingança, acima dos interesses pessoais, acima do orgulho, acima de nossa instinto animalesco… acima da gana por vitória.

A guerra é responsabilidade de cada um de nós e não apenas de um grupo de pessoas que a faz acontecer. É preciso compreendermos que aquilo em que acreditamos, os pensamentos que temos, as pequenas decisões que tomamos em nossas vidas influencia muitas pessoas que nos rodeiam, mais do que possamos imaginar. Começar a agir com honestidade e respeito ao outro talvez seja um primeiro passo para mudar essa visão pessimista de futuro. Eu sei que estas palavras podem soar como dicas piegas e sem muito sentido objetivo. Mas acredito que é a soma do que somos que faz a realidade do planeta em que vivemos. Para mudar a realidade é preciso que, se não todas as pessoas, pelo menos a maioria delas tenha atingido um nível superior de consciência.

 

* Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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