‘‘Pátria Madrasta vil’’

Esta semana recebi por e-mail a redação de Clarice Zeitel Vianna Silva, de 26 anos, que foi premiada pela UNESCO. Intitulado “Pátria Madrasta Vil”, o texto fala sobre como vencer a pobreza e a desigualdade. Como se brincasse com as palavras, Clarice começa: “Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência… Exagero de escassez… Contraditórios? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL. Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade. O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada – e friamente sistematizada – de contradições (…)”.

E seu bonito jogo de palavras continua falando sobre a importância da educação de base, um sistema de bolsas e cotas que não funciona, um país com uma história de erros governamentais e com uma população apática e nada participativa.

Nosso país, sem dúvida, nos desperta os mais contraditórios sentimentos, talvez por ser, realmente, uma combinação mal engendrada de contradições: “De um lado esse carnaval, do outro a fome total”, como já diria Gilberto Gil.

Ao que parece, no entanto, as coisas por aqui andam melhorando o coração desta nossa “pátria amada”. Ao menos no que diz respeito à desigualdade social, nosso país vem melhorando o rumo e acertando o prumo.

As notícias que recebemos no final do ano apontam que o Brasil, influenciado por uma pequena melhoria na educação e pelo crescimento do emprego formal, está reduzindo “de maneira brutal” a desigualdade social. Um Brasil menos desigual, com trabalhadores mais protegidos. Foi assim que a maior pesquisa nacional de condições de vida encontrou o país ano passado. Porém, as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres ainda são altas e requerem mais investimentos em educação e em empreendedorismo.

A educação, que é muito ruim, mas que se tornou menos ruim, é um dos motores da queda da desigualdade, assim como o avanço do mercado formal. Atualmente, o Brasil gera 2 milhões de emprego por ano, fazendo com que a queda de diferença de renda entre a população seja mais sustentada do que se tivesse atrelada a programas sociais ou de concessão de crédito, que podem sofrer alterações conforme as mudanças políticas.

Os resultados de pesquisas confirmam que a primeira década do século 21 no Brasil foi “inclusiva” do ponto de vista social, com grande diminuição da desigualdade e redução da pobreza. O período guarda os melhores resultados desde quando o país produz estatísticas sobre distribuição de renda. O Brasil está hoje no menor nível de desigualdade da história documentada. O índice de Gini (indicador que mede a desigualdade) foi 0,527 em 2011 – o menor desde 1960 (0,535) – quanto mais próximo de zero menor é a desigualdade.

A desigualdade está caindo de uma forma acelerada nos últimos 10 anos. A metade mais pobre da população está crescendo cinco vezes mais rápido em termos de renda que os 10% mais ricos. A redução da desigualdade já está mudando o perfil da sociedade brasileira. A base da distribuição está com uma taxa de crescimento completamente diferente em relação à média da população. Em certo sentido, isso faz com que o Brasil se torne um país normal.

Mas, apesar das boas notícias sobre o crescimento econômico, que levou o país a ultrapassar o Reino Unido e consolidar o sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta, o Brasil ainda é uma nação de desigualdades. Segundo relatório sobre as cidades latino-americanas feito pela ONU, o Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina em distribuição de renda, ficando atrás somente de Guatemala, Honduras e Colômbia.

Os dados e as notícias dos setores da economia podem não ser os ideais para assistirmos a uma verdadeira mudança no nosso país, mas nos faz ter esperanças de que – em um futuro não tão distante – nenhum jovem escreva com tanta propriedade sobre essa nossa pátria travestida de “madrasta vil”.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

Tags:

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário