‘‘Amanhã há de ser outro dia’’

Esta semana, a internet proporcionou-me um reencontro rápido, mas bem proveitoso, com um velho amigo. Entre outras coisas, discutimos sobre a política local e, claro, o caminhar – já em seus últimos passos – do julgamento do mensalão. Conhecidentemente, enquanto conversávamos, o Jornal Nacional divulgava matéria sobre as frases que marcaram o julgamento. Por algum tempo, debatemos sobre as citações das canções de protesto escritas durante a ditadura militar, uma outra “página infeliz da nossa história”.

Dono de uma biografia esquerdista e apoiador histórico do PT, Chico Buarque virou símbolo da primeira fase do julgamento do mensalão, quando suas composições se transformaram em munição tanto da acusação quanto da defesa dos réus. Mas as citações literárias e musicais não se restringiram aos versos dos sambas de protesto. Para conquistar a atenção dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e tentar convencê-los da inocência de seus clientes, os 38 advogados que subiram à tribuna nos oito dias de sustentações orais deixaram um pouco de lado o juridiquês para exercitar a verve literária. O primeiro a lançar uma referência cultural foi o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele fez a mais simbólica citação do julgamento, ao recitar versos do samba Vai passar, de Chico Buarque: “Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. A frase causou reações entre os defensores dos réus e vários advogados recorreram ao mesmo autor para rebater os argumentos de Gurgel.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”, respondeu o advogado Leonardo Yarochewsky, em uma referência à composição Apesar de você. As duas músicas de Chico Buarque mencionadas no STF foram compostas durante a ditadura militar e são conhecidas por conter críticas implícitas ao regime. Agora, são usadas no julgamento que vai decidir o destino dos principais líderes do partido apoiado por Chico Buarque. Ainda na seara musical, a terceira citação ficou por conta do advogado Luís Maximiliano Leal Telesca Mota. Em sua sustentação oral, ele usou um verso da música O tempo não para, de Cazuza, para criticar a acusação. Do alto da tribuna, Maximiliano apontou para Roberto Gurgel e disparou: “Senhor procurador, a sua piscina está cheia de ratos, mas as suas ideias não correspondem aos fatos”. A acidez do verso do roqueiro foi considerada uma citação agressiva ao procurador, que poucos dias depois criticou as “grosserias” dos advogados.

Enquanto nos mantínhamos no campo das citações dos ministros, a conversa fluiu leve e sem embates. O nosso debate só começou de verdade quando meu amigo disse acreditar que o recesso dado pelo Supremo – o julgamento só retornará no dia ** de novembro – só vai prolongar e desvalorizar a “interminável novela do mensalão”. Até concordo que o tema se estende por meses e o diálogo jurídico cansa; os ministros não são exatamente galãs de TV e acompanhar o andamento enjoa, principalmente quando não agregam novidade ao conflito. Mas não podemos negar seu surpreendente resultado condenatório.

Se regressarmos no tempo poucos meses, veríamos que nosso prognóstico sobre o julgamento do mensalão foi amplamente equivocado. Especulávamos os diversos argumentos que seriam utilizados para a absolvição dos então chamados mensaleiros, porque acreditávamos na impunidade, ou, melhor dito, no caráter político-partidário do julgamento.

Como o governo do PT havia indicado a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal, claro, o veredito somaria então 6 a 5 pela absolvição de todos, daí ser perfeitamente escusável o erro de estratégia de muitos meios de imprensa, que não só anteviram a “pizza” final, como investiram muito mais na cobertura dos corredores dos demais prédios da Praça dos Três Poderes (onde haveria o comando da farsa a ser encenada no teatro do STF), que no diálogo com especialistas que traduzissem os herméticos fundamentos jurídicos. Estes, os fundamentos jurídicos, seriam apenas um discurso ornamental que materializaria a impunidade.

Hoje, mesmo antes do final, já ficou provado que o julgamento passou longe de ser uma farsa comandada pelo PT. Devo confessar que não descarto que a efetivação do castigo daqueles já condenados demore tanto que venha a reacender a tal sensação de impunidade. Mas a condenação nominal já é materialmente irreversível. O julgamento e suas desacreditadas condenações já nos dá a certeza de que – se assim continuar a justiça – “amanhã há de ser outro dia”.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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